O denso nevoeiro das madrugadas

A névoa assusta e dá medo, mas também tem um beleza muito especial.

Antonio

23 de julho de 2019 | 07h40

Esta época do ano é especial. É como se os filmes de terror com Jack, o Estripador encontrassem a locação perfeita, não em Londres, mas em São Paulo, que já foi da garoa, mas só preservou o antigo nevoeiro.

Certas madrugadas tem o horizonte mais curto do que um quarto no escuro. A iluminação dos postes não consegue mais do que criar um clarão de ficção científica, uma luz baça como os antigos lampiões que iluminavam o braço do assassino descendo a faca no pescoço da mulher andando com medo pelas ruas vazias, onde seu corpo será encontrado na manhã seguinte, quando a luz do sol dissipar o nevoeiro e mostrar o crime em toda sua brutalidade.

O nevoeiro que encobre São Paulo às vezes  é denso como manteiga, gordo, opaco, capaz de limitar os potentes faróis dos carros modernos, esconder a menos de 20 metros todos os perigos verdadeiros e imaginários que apavoram os que caminham a pé e preocupa os que seguem de automóveis, hipoteticamente mais protegidos, até o ônibus sair do nevoeiro onde não deveria estar.

Tem gente que tem que caminhar pela cidade no começo da madrugada. Não conheço ninguém que faça isso sem medo, sem muito medo, das almas vivas e penadas que assaltam ou assombram.

Tem quem prefere o assalto. A coisa acontece. A moto surge do nada, no meio da neblina, o garupa aponta a arma, pega o celular ou a carteira e seguem em frente. Há um fato concreto, uma violência que acalma os sentidos. Fui assaltado, ainda bem que não aconteceu nada mais sério.

É mais fácil do que lidar com o desconhecido, com a possibilidade do estripador sair da névoa e fincar a faca no seu peito. Do medo do desconhecido que está do outro lado do nevoeiro. A nevoa assusta, mas tem também uma beleza especial, que hipnotiza e faz esquecer o medo.

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