O fim da alegria, o fim da poesia

Nos dias de hoje é proibido... rir, brincar e viver a vida rodeado de poesia. Chegou a nova era do cinza.

Antonio

12 Fevereiro 2019 | 13h00

Quando o que veio nos salvar morrendo na cruz nasceu, os marinheiros de um navio que cruzava o Mar Egeu ouviram uma voz saída das profundezas do mar gritando: o grande deus Pã morreu!

Com o deus, diz a lenda, morreriam a alegria, o riso, a brincadeira, a poesia e a possibilidade de ser feliz.

Mas não é bem assim. Ao longo das eras, o ser humano reinventa a capacidade de rir e com o riso vem a beleza, o amor, a poesia, a música e a dança, que enfeitam o mundo e enchem a vida de cor.

O riso, de tempos em tempos, é promovido a pecado. Então, porque o diabo reveste a hipocrisia de virtude, e é muito mais fácil controlar uma sociedade triste, o riso é banido e condenado e os que riem e são felizes são excomungados ou crucificados em nome do padrão médio, do cinza que é o tom morno do mundo, da falta de esperança que não nasce nas cores das flores, nem voa no cheiro de terra molhada espalhado pelo vento.

O grande deus Pã morreu! Mais do que nunca, os dias de hoje mataram o deus da felicidade, da natureza, da beleza, do riso e da poesia.

Sem Pã passeando nos bosques, tocando sua flauta, seguido pelas ninfas cantando versos de amor à vida, a vida perde seu encanto, fica sem mistério, fica chata e monótona, pautada por verdades que escondem a verdade e que não têm qualquer ligação com a beleza da alma, a profundidade do espírito ou a saciedade do corpo.

De tempos em tempos, a inquisição renasce. Surge em outra embalagem, mas tão estúpida quanto os dominicanos e seus autos de fé, em que queimavam pessoas para iluminar Madri nas noites de sextas-feiras.

Nos dias de hoje, não há espaço para o deus Pã. É feio ser ninfa ou herói. É proibido enfrentar dragões, salvar a mulher amada, rir, brincar e viver a vida rodeado de poesia. Eles venceram. Chegou a nova era do cinza.