O mar está engolindo a terra

Sobre o avanço do mar e suas consequências

Antonio

27 Junho 2018 | 08h55

Mais do que nunca os jornais têm mostrado que o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” está absolutamente correto. É rara a semana em que não aparece notícia sobre algum trecho de litoral que esteja sendo comido pelo mar. A regra vale para o mundo e para o Brasil. A verdade é que as mudanças climáticas estão aí e suas consequências têm efeito dramático sobre as alterações das marés, com recuos ou avanços modificando profundamente o desenho da costa.

Para não estender a história, a praia do Tombo, no Guarujá, perdeu dezenas de metros de areia, engolidos pelas ondas que chegam perigosamente próximas das construções do outro lado da rua que as separa da praia.

A ameaça é concreta e não é improvável que brevemente algum edifício seja severamente atingido pelo solapamento do solo embaixo dele. O mais dramático na imagem é que não há força humana capaz de conter a violência das águas nos grandes movimentos das marés. Seja uma maré de lua, seja uma ressaca, se as ondas entrarem pela praia, além de comerem mais da faixa de areia, acabarão por atingir a rua e, depois dela, os imóveis do outro lado.

As ressacas no Rio de Janeiro têm produzido ondas muito maiores do que as vistas até poucos anos atrás. Não estou falando do caso patético da ciclovia engolida pelo mar porque os cálculos para sua construção estavam completamente errados. Não, em toda a costa fluminense o mar tem provocado mudanças de monta na geografia das praias, atingindo ou se aproximando perigosamente de edifícios que até recentemente estavam distantes de qualquer ameaça mais séria vinda do oceano.

Recentemente o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou uma matéria dando detalhes das áreas ameaçadas pelo mar e quais as ameaças que realmente podem causar danos a cidades ou regiões como Santos, Guarujá ou São Sebastião, para ficar apenas no estado de São Paulo.

Este fenômeno é mundial e passa pela elevação do nível dos oceanos, sentida em todos os continentes, com maior ou menor intensidade. Não há nada de novo debaixo do sol. Grande parte da antiga cidade de Alexandria, na antiguidade, centro de conhecimento e cultura do mundo greco-romano, está submersa, vários metros abaixo do nível do Mediterrâneo.

E isso se repete nas regiões costeiras da América Central, onde ruínas de construções pré-colombianas, escondidas pelas águas há séculos, vão sendo descobertas pelos arqueólogos marinhos.

No passado distante, movimentos muito mais radicais da crosta da Terra transformaram oceanos em desertos ou florestas imensas, como é caso de desertos norte-americanos e da região amazônica, que já foram fundo de mar.

A verdade é que as mudanças pelas quais o mundo passa são fenômenos naturais e que se repetem de tempos em tempos. Há dez mil anos, grande parte da Europa estava coberta de gelo e a Groelândia tinha clima temperado. Não há indícios de que o gelo ameace a Europa, mas a temperatura na Groelândia vem subindo paulatinamente, mudando a paisagem da ilha.

Este quadro dramático tem consequências para o ser humano e seu meio ambiente. A elevação das águas vai espantar as pessoas para áreas hoje distantes da costa. Cidades serão devoradas pelas ondas. Centros de produção e geradores de riquezas serão perdidos para o mar. Novas epidemias se espalharão por regiões atualmente imunes a elas. Chuvas, ventos, tempestades, granizo, furacões, etc., terão novas áreas para se espalharem. As condições de vida se tornarão mais severas, enfim, viver, para grande parte da população do planeta, será mais complicado do que é hoje.

Entre as atividades que serão fortemente atingidas, o setor de seguros está entre os que mais rapidamente sentirão os efeitos das mudanças. As perdas podem crescer para patamares inimagináveis e as indenizações atingirão ordem de grandeza atualmente acima da capacidade de pagamento das seguradoras.

O setor de seguros sabe disso. Por isso vem financiando estudos e acompanhando de perto o desenrolar dos fatos. Quanto mais informações ele tiver, maiores as condições de enfrentar o problema sem perder sua capacidade de agente de proteção da sociedade. Mas não é só o setor de seguros que deve ficar atento. A humanidade está diante da possibilidade real de enfrentar mudanças profundas e elas podem acabar mal para bilhões de pessoas.