O tapete inesperado

Mesmo já mortas, as flores deram sua última contribuição para a beleza do mundo, num momento mágico demais para ser estragado!

Antonio

22 Novembro 2018 | 09h55

Eu e a Clotilde saímos de casa para dar nossa caminhada na Cidade Universitária. Entramos na USP e seguimos pela avenida que contorna a raia olímpica, o novo lar das capivaras, que se multiplicam em velocidade impressionante, sem inimigos naturais para controlar a população.

Como minha sugestão de soltar duas onças pintadas para fazer o contraponto necessário não encontrou apoio entre os dirigentes da universidade, as capivaras correm soltas, sem ter ao menos um muro de vidro para entrarem de cabeça, como acontece com os pássaros, suicidas involuntários, que batem no novo muro que separa a Marginal e caem mortos porque não veem o vidro.

Mas este dia o ponto alto não foi o muro, nem a ciclocalçada, nem as capivaras. Nem as jacas que pendem dos galhos, nem as flores, nem os pássaros de todos os tipos que voam pela enorme área da Cidade Universitária.

O que fez a diferença foi o tapete deslumbrante que cobria parte do chão, nas áreas destinadas ao estacionamento dos carros, no centro da avenida, embaixo das tipuanas.

Um enorme tapete amarelo cobria o calçamento, escondendo o feio dos buracos e da sujeira da rua.

Milhares e milhares de flores amarelas caídas das tipuanas formavam um tapete único, de um amarelo intenso, que se estendia pela avenida como se a rua estivesse arrumada para a procissão de Corpus Cristi.

Eu cheguei a entrar na área enfeitada pela florada caída e segui por alguns metros pisando no tapete inesperado e maravilhoso.

Mas saí logo. Era bonito demais para ser pisado. Era mágico demais para ser estragado.  As flores já estavam mortas, mas naquele momento o cenário era delas. Era sua última contribuição para a beleza do mundo.