Os engraxates estão acabando

As coisas mudam... e mudam com muita rapidez! Coisas que eram imprescindíveis agora quase não existem mais. Como os engraxates, por exemplo...

Antonio

28 de novembro de 2019 | 07h07

Durante décadas os engraxates foram figurinhas carimbadas na cidade de São Paulo. Não só estavam em todos as barbearias da cidade, como estavam nas praças e ruas do centro.

Durante mais de 30 anos, o Seu Pereira engraxou meus sapatos. A parceria começou quando eu estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e se estendeu até sua morte, alguns anos atrás.

Seu Pereira era uma figura humana fantástica. Adorava motos e carros e teve, entre outras, uma Harley Davidson com motor de Honda e uma Berlineta Willys Interlagos com motor de Volks.

Seu Pereira foi dos grandes engraxates de São Paulo. Seu ponto era em frente ao Restaurante Itamarati, no Largo do Ouvidor.

Naquela época, o Largo do Ouvidor tinha mais três ou quatro engraxates, a Praça João Mendes tinha outros tantos e a Praça Antonio Prado teve até um galpão montado pela Bolsa de Valores para abrigar os engraxates. A Praça Dom José Gaspar, endereço da Biblioteca Mario de Andrade, tinha perto de dez cadeiras e a Praça da República também.

São Paulo era o lugar certo para os engraxates mostrarem sua arte e competirem entre eles para ver qual tinha mais clientes.

Mas o homem chegou na lua e os engraxates começaram a perder mercado.

Por culpa da NASA as pessoas começaram a usar tênis em vez de sapatos e, como tênis não precisa de graxa, os engraxates perderam a vez.

As mudanças da economia são rápidas e implacáveis. Da mesma forma que sumiram as agências de viagem, os engraxates praticamente desapareceram de São Paulo. Uma das exceções é o Seu Luiz, engraxate do Largo do Arouche. Grande pessoa e grande engraxate, ele é o dono da praça e continua firme, com sua clientela fiel.

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