Por que deveria comer se sei que não gosto?

A resposta mais clara e lógico possível: por que eu deveria comer jiló ou quiabo se sei que não gosto?

Antonio

07 Fevereiro 2019 | 07h00

Uma irmã de minha avó não comia quiabo, nem jiló. Prática que eu considero saudável, tanto que também não como nem um, nem outro. O que é completamente diferente de não comer nhoque, que também não como.

Jiló e quiabo existem, não há como negar. Já o nhoque é como Caraguatatuba: não existe, portanto, não pode ser comido. Caraguatatuba é um pesadelo, pesadelo é um sonho ruim, sonho não existe, logo, Caraguatatuba não existe. Ora, se Caraguatatuba não existe e o nhoque é como Caraguatatuba, ele também não existe, assim, não pode ser comido.

Resumidamente, comer nhoque não é comer, é não comer. Afinal, ninguém pode comer o que não existe. O nhoque é uma ilusão.

Mas voltando à minha tia avó, ela não comia quiabo, nem jiló, não importava o que os outros fizessem para levá-la a experimentar e quem sabe mudar de opinião.

Mulher de personalidade forte, tia Judith não aceitava palpites, fossem a favor ou contra, indistintamente. Ela sabia que não gostava de quiabo, nem de jiló, então não havia razão para os amigos insistirem em que ela comesse os dois legumes – se é que são legumes.

Para ela não havia razão para discussão. Afinal, cada um come o que quer, ou melhor, gosta ou não gosta de comer isso ou aquilo e gostar ou não gostar é um ato individual e intransferível.

Eu gostaria de ter tido esta clareza e livre arbítrio quando era menino. Minha mãe me obrigava a comer fígado, rim, miúdos de frango e outras coisas que eu não gostava e eu não tinha argumentos contra o “come” que ela me dizia. Hoje seria diferente, mas não foi hoje, foi ontem…

Um dia perguntaram para minha tia se ela já tinha comido quiabo. Sua resposta é um primor de clareza, lógica e bom senso. Ela olhou o interlocutor de alto a baixo e respondeu: Por que eu deveria comer se sei que não gosto?