Viagem e o Planos Bar

Quando ouço Viagem, viajo no tempo e lembro da época em que o Planos Bar e seu pianista, meu amigo, eram muito especiais, para mim e para meu Pai.

Antonio

28 Dezembro 2017 | 09h09

Cada vez que ouço Marisa Gata Mansa cantar Viagem, volto no tempo e me lembro do Planos Bar. O melhor bar de São Paulo durante muitos anos e que, com seu fechamento, deixou quem gosta de bar, com cara de bar e jeito de bar, órfão de um lugar como ele.

O Planos ficava na Rua Oscar Freire e hoje não sei se teria sucesso. Não ter aparecido nenhum herdeiro pode ser um indicador de que seu tempo passou. Não sei, não sou do ramo, fui apenas um frequentador, mas com certeza frequentaria de novo um lugar com a mesma proposta.

Era um lugar gostoso, com uma mesa na entrada, do lado direito, o balcão, um corredor comprido, com um piano debaixo da escada e uma sala no fundo. Não era grande. Era a medida exata para um bar, para ser um lugar especial, para se conversar, ouvir música, comer e beber em paz.

A cozinha do Planos produziu um picadinho e um camarão que fizeram história em São Paulo.

Mas, para mim, o que fazia diferença era o pianista, meu grande amigo e grande músico, João Maria de Abreu.

O João Maria era único. Era um homem extraordinário e foi um amigo muito especial. Era comum ficar até alta madrugada conversando com ele, me atrevendo até a compor, fazendo letras para as músicas que ele criava. O resultado é que virei Long Play, com música gravada e direito autoral.

Quando meu pai entrava no Planos, o João Maria acabava a música que estava tocando e imediatamente tocava Viagem, que, ele sabia, mexia com o Dr. Jorge, que, apesar disso, ou por isso mesmo, não se conformava com o verso “…num cavalo baio, no alazão da noite”. Meu pai era radical: ou era baio ou era alazão! Mas depois sorria e aceitava a licença poética.

O Planos marcou época. Foi um lugar especial, num tempo especial.