A causa da educação não pode ser tratada como voo de galinha pelas marcas

A causa da educação não pode ser tratada como voo de galinha pelas marcas

Wal Flor

08 de setembro de 2020 | 11h34

 

Luane tem 5 anos. Mora em Paraisópolis e durante a pandemia começou a escrever nas paredes, pois não tinha mais caderno. Depois parou de escrever na parede, pois não tinha mais lápis. Antes da pandemia frequentava a escola todos os dias. Agora passa o dia todo com a mãe e mais 2 irmãos em 2 cômodos.

Gustavo tem 8 anos. Também mora em Paraisópolis. Tem mais 2 irmãos de 6 e 4 anos. Gustavo está na porta de um supermercado de elite no Morumbi, ao lado da comunidade onde mora. Com um chinelo arrebentado na mão (que faz questão de mostrar para todos que passam)pede dinheiro para comprar uma nova. Antes de entrar no mercado, paro e começo a conversar com Gustavo. Não dou dinheiro (sou da linha de não estimular as crianças a ficarem na rua, mas faço questão de conversar e conhecer mais este ser humano em formação). Pergunto ao Gustavo como vai a vida, quantos irmãos tem, onde mora e como vão os estudos nestes tempos de pandemia. Gustavo responde que quando dá, faz aulas no celular da mãe, mas não todo dia. Os irmãos menores estão recebendo uma cartilha em casa, mas nem sempre a mãe consegue tempo para ajudá-los nos exercícios.

A nossa educação pública sempre foi uma das mazelas da nossa sociedade e a Covid-19, apesar de trazer alguns avanços digitais para a educação, está deixando milhares de crianças para trás. Do ensino infantil ao médio,sempre existiram problemas imensos na nossa educação. Destaco aqui os dois mais agravantes: o baixo número de crianças alfabetizadas na idade certa e a evasão no Ensino Médio. Segundo dados do Inep, divulgados em 2017, de cada 10 brasileiros de 19 anos, apenas 4 não concluíram esta fase final da educação básica. Em 2017, mais de 400 mil jovens abandonaram o ano letivo. Imaginem agora durante a pandemia.

No Brasil,temos mais de 4 milhões de crianças nesse processo de aprendizagem e infelizmente temos pouco para celebrar. Conforme dados da última Avaliação Nacional de Alfabetização (ANA), de 2016, mais da metade das crianças não sabe ler e escrever na idade certa, ou seja, até os 7 ou 8 anos de idade.

Não podemos deixar de reconhecer os avanços educacionais dos últimos 10 anos, principalmente a evolução dos sistemas de avaliação, que nos permitem conhecer e acompanhar de perto esses números alarmantes. Antes nem isso existia, o que conquistamos até agora não é suficiente e não podemos nos contentar. Estamos lentos, muito lentos!

Quando uma criança aprende a ler e a escrever na idade certa, ela consegue escrever a sua própria história. Além disso, percorre os próximos anos de estudo de forma mais tranquila e se sente mais motivada e segura a ser quem ela quiser no futuro. Sonhar e realizar os seus sonhos.

Entretanto, nestes meses sem aula presencial, é visível perceber como a fase da alfabetização, um momento tão sensível e delicado no processo da aprendizagem, foi drasticamente afetada.

Tenho 3 filhos. O mais novo, Davi de 8 anos, morador privilegiado do alto do Morumbi, ao lado de Paraisópolis, faz as atividades num computador (que estava guardado na gaveta).  Aos poucos vai se habituando com as videoconferências diárias com professoras, com os exercício on-line e a interação por meio de joguinhos super legais de matemática e alemão. Sem contar a montanha de Lego e os jogos no celular, que ao mesmo tempo que divertem, também contribuem para seu o processo de aprendizagem. Mesmo assim, apesar de todos os esforços, percebo que o rendimento do meu filho é inferior ao período de aulas presenciais. Sim, professor é essencial para o aprendizado. Pais tem pouco conhecimento, tempo e paciência para este processo junto aos filhos. Mas como estamos em pandemia e todos estão no mesmo barco, ou melhor, no mesmo mar com barcos diferentes, tento relaxar.

Mas não consigo. Me dói a certeza de que crianças como o Davi, um garoto com dezenas de lápis coloridos e uma família estruturada, terão muito mais oportunidades do que o Gustavo e a Luane no futuro. A desigualdade educacional e social pós-pandemia irá aumentar ainda mais essas diferenças.

Tenho visto e prestado atenção no crescimento da cidadania e solidariedade das empresas durante estes últimos anos. Grandes avanços. Porém, precisamos ressaltar, agora mais do que nunca, que a cultura de investimento social mudou. Uma renda emergencial é essencial, mas investimentos com real impacto ambiental ou social são de longo prazo.

Para aqueles que já estão além das cestas básicas e da filantropia, vale lembrar que educação não pode ser tratada como um voo de galinha pelas empresas ou marcas. Se depender das pesquisas, Millennials ou Geração Z deixam evidente que a principal causa a ser abraçada pelas empresas deve ser a educação. Entretanto,o investimento e os recursos precisam ser bem alocados. O foco deve estar na melhoria das políticas públicas e não em investimentos pontuais, feitos e monitorados de forma marqueteira.

O meu trabalho é assessorar empresas e marcas a transformar, de verdade, a vida de crianças como Luane e Gustavo e assim contribuir para o negócio de maneira mais estratégica e perene. Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho. Bora fazer bem feito! Menos storytelling e mais storydoing, por favor!

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