ESG: você está preparado?

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ESG: você está preparado?

Wal Flor

13 de outubro de 2020 | 09h23

Para combater a crise de opióides nos EUA, a Legg Mason Inc. recentemente adquirida pela Franklin Resources Inc., uma das 6 maiores empresas gerenciadores de ativos do mundo, influenciou a seguradora de saúde americana United Health a identificar quais os médicos mais receitavam analgésicos a base de opióides (vale ressaltar que a crise de opioides nos Estados Unidas é considerada epidemia e mata mais de 70 mil pessoas por ano). A partir daí a pressão da Legg Mason foi para que os os próprios médicos desenvolvessem soluções alternativas. Depois de um período de investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento, descobriram em seu próprio portfólio de empresas, soluções que não viciam e logo começaram a ser receitadas pelos médicos.

Em outra situação, ainda envolvendo o alto consumo de medicação nos Estados Unidos, os investidores influenciaram a rede de varejo farmacêutica CVS a criar uma lista de pública nacional para controlar a venda de remédios. Assim o paciente compra somente a dosagem e quantidade prescrita, evitando o uso indevido.

Em outro caso envolvendo o setor de e-commerce, os investidores começaram a questionar a matriz energética do transporte de mercadorias da gigante Amazon. Não por acaso, recentemente a Amazon estabeleceu compromissos de obter energia 100% renovável até 2020 e ser carbono zero até 2040.

Estes são casos onde os parâmetros de ESG (Environmental, Social, Governance ou em português: Meio Ambiente, Social e Governança) são levados a sério pelo mercado investidor. O fluxo do dinheiro comandado pelos grandes gestores de recursos como a líder Black Rock e outras como ClearBridge, tem sido decisivo para acelerar as mudanças. As companhias que compõem o portfólio destes gestores estão sendo cada vez mais pressionadas a mudarem seu comportamento e serem mais transparentes em seu impacto, uma vez que isto pode alterar o valor da companhia no longo prazo.

“Quando você fala de investimento fora do país, se você for um acionista relevante, você tem uma influência sobre o Conselho de Administração e sobre o corpo executivo desta companhia e a partir daí pode pressionar para um rumo mais sustentável”, explica Roberto Teperman, responsável pela Legg Mason no Brasil. “Se inspirar no que estas empresas nórdicas, europeias e algumas americanas estão fazendo é o melhor conselho que eu posso dar para as empresas brasileiras.” Com 2 filhos sendo educados numa escola progressista e uma esposa consciente e atuante na causa da sustentabilidade, Roberto teve seus hábitos mudados radicalmente nos últimos 15 anos.

De fato, os parâmetros de ESG tem sido uma das formas mais eficientes para educar as companhias. Uma vez que o fluxo de dinheiro vem destes acionistas mais conscientes e exigentes com a perenidade do negócio, nada melhor para mudar mais rapidamente o comportamento das empresas, principalmente de capital aberto.

Mas como os acionistas e fundos de investimento sabem se a empresa está atendendo os princípios do ESG? Leitura de relatórios de sustentabilidade, entrevistas com executivos, visita às unidades da empresa são algumas das práticas atuais. Por meio de uma análise cada vez mais fundamentada em dados e evidências, alguns destes gestores desenvolvem metodologias próprias.

A Legg Mason, por exemplo, desenvolveu uma metodologia autoral composta por 7 dimensões que há mais de 13 anos vem sido aplicada e aprimorada. Entre as diversas perguntas que compõe a sua avaliação, destacam-se: Como é a cadeia produtiva do produto? De onde vem a matéria prima? A legislação têm criado incentivos ou restrições para o negócio? Como trata o capital humano, seus trabalhadores e a cadeia de valor? Qual o investimento alocado para soluções sustentáveis? O bônus dos executivos estão relacionados às questões ESG? A empresa lidera o tema ESG no setor? Como a empresa mede e reporta a abordagem ESG?

Chamar de fundo ESG, um portfólio composto de empresas de tecnologia, com apenas uma mulher no conselho, por exemplo, é considerado greenwash pelos especialistas. Qual o consumo de energia? De onde vem a energia? Como são tratados os dados? Qual a diversidade na liderança executiva e no conselho? Dependendo desta e outras respostas, a empresa pode e deve ser desqualificada para um fundo com abordagem ESG.

Segundo Sir Ronald Cohen, Presidente do Conselho do Global Steering Group for Impact Investment e um dos membros do conselho da Harvard Business School, empresas como Exxon Mobil cria US$ 38 bilhões por ano em danos ambientais, a Shell cria US$ 22 bilhões. Esses são números que todos deveríamos avaliar para saber o valor real do lucro destas empresas. Medir o impacto e ser transparente na divulgação destas informações são um dos grandes desafios do capitalismo de stakeholder.

Nós da Agência Lynx, assessoramos empresas seguindo nossa metodologia do SER, AGIR e FALAR. Muitas vezes somos chamados apenas para contribuir como o “Falar”, ou seja, com a comunicação, com o famoso “storytelling” das empresas. Entretanto, uma comunicação sem estratégia, sem compromissos, sem indicadores, sem metas e sem monitoramento de práticas estruturantes, não para em pé por muito tempo. Vai ser apenas um voo de galinha, com desperdício de dinheiro. Além disso terá grandes chances de ter uma reação negativa por parte de seus investidores e especialistas. Portanto quando pensar em ESG, vale refletir: você está preparado para SER e AGIR, antes de FALAR?

Por Wal Flor, sócia fundadora da Lynx e LeVila.

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