Os criadores do futuro

Os criadores do futuro

Wal Flor

19 de março de 2019 | 17h50

Num futuro bem próximo, a garagem da sua casa vai decidir se você dever ir para o trabalho a pé ou de carro. O seu micro-ondas, baseado nos dados sobre a sua saúde, decidirá se você pode ou não comer uma pipoca. A sua caixa de som, inspirada por seu humor, irá escolher a música que você deve ouvir pela manhã.

Sua casa vai ser mais inteligente do que você imagina por conta de tecnologias como inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, blockchain e, claro, um enorme banco de dados que vai saber muito mais sobre você, do que você um dia sonhou em sua vã filosofia.

Estas e outras 315 tendências foram lançadas pelo Future Today Institute, numa das 2.100 sessões do festival SXSW 2019 na semana passada. Com mais de 200 mil pessoas do mundo todo, o South by, como é chamado pelos americanos, é considerado o maior festival de inovação e criatividade do mundo, e acontece há 32 anos em Austin, no Texas.

Com uma visão bem humanista, costumo resumir o festival como sendo um grande diálogo global, onde se discute o futuro da humanidade e o impacto das tecnologias em nossas vidas.

É exatamente neste contexto que a futurista Amy Webb, apresentou com mais detalhes, algumas das tais 315 tendências que esperam por nós nos próximos anos. Mais do que prever o futuro, Amy nos convida a nos conectar com o futuro. O estudo segue um modelo probabilístico, especificando as chances que cada tendência tem de acontecer, do ponto de vista otimista, neutro e negativo.

No caso da casa inteligente, citada neste primeiro parágrafo, segundo Amy existe 0% de chances de termos apenas impactos positivos. Há 30% de chances de não termos grandes mudanças na forma que vivemos, ou seja, preservaremos nosso status quo. Entretanto, as chances destas tecnologias transformarem nossas vidas em algo negativo ou catastrófico chegam a 70%. Você não terá mais controle sobre suas decisões e a sua casa poderá ser transformada numa prisão, comandada por Apple, Google ou Amazon.

Com o crescimento exponencial destas tecnologias, os temas relacionados à ética, e falta ou excesso de regulação, se tornam cada vez mais frequentes. Diversos estudos científicos estão em curso para orientar tais decisões, baseadas em duas questões centrais: esta nova aplicação promoverá um bem para a sociedade? A sociedade irá aceitar esta nova aplicação? As respostas não são fáceis. Segundo especialistas, ainda estamos longe de entender o impacto de nossas decisões e, consequentemente, como devemos agir da melhor forma no presente. O conceito “homem + máquina” tende a ser perseguido para conseguirmos a longevidade, e obter o que chamamos hoje de superpoderes. Mas quais superpoderes? Aqueles todos apresentados nos personagens da Marvel serão bem possíveis, em pouco tempo.

Desconforto à parte, não podemos negar o tremendo impacto positivo que algumas tecnologias estão trazendo para a vida dos deficientes, por exemplo. Ter um assistente de voz, como Siri ou Alexia, respondendo 20 vezes corretamente o nome dos netos para um portador de Alzheimer, é um conforto para o paciente e para seus familiares. Os consoles do Xbox, adaptados para jogadores com mobilidade limitada, criados pela Microsoft, oferecem uma nova perspectiva de vida para as pessoas com deficiência, e nos faz chorar de emoção com a empática campanha lançada no Superbowl 2019, intitulada“We all In”.

A esperança de um cenário otimista para nosso futuro é possível e precisamos de colaboração e flexibilidade de todos. Não por acaso, outro assunto extremamente mencionado nesses diálogos globais é a necessidade de pessoas e marcas terem um propósito, uma causa.

Uma razão de existência que acalma a alma, dá sentido para a vida no presente e contribui para criarmos um futuro melhor para todos.