Solidariedade Exponencial

Solidariedade Exponencial

Wal Flor

29 Janeiro 2019 | 20h07

Em 2007, quando o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) – co-ganhador do Nobel da Paz, juntamente com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, lançou seu 4orelatório, eu lembro perfeitamente de uma palavra que os cientistas disseram que precisávamos nos acostumar a usar: adaptar.

 

“A ciência é apenas parte do quebra-cabeça. As outras têm a ver com a resiliência e adaptabilidade das pessoas” comentou mais recentemente Will Steffen, diretor do Instituto de Mudanças Climáticas da Universidade Nacional da Austrália.

 

Com as temperaturas cada vez mais elevadas, nós, habitantes da terra, precisamos começar a nos adaptar às catástrofes naturais.

 

Se adaptar pressupõe se antecipar aos eventos e criar soluções para o problema, com ações relativamente fáceis e baratas, como sistema de alerta precoce, disponíveis em alguns aplicativos. Uma série de outras iniciativas preventivas também podem ser tomadas para se evitar catástrofes humanas e ambientais.

 

Mesmo com ações de mitigação (outra palavrinha que os cientistas usam muito), as tragédias vão acontecer cada vez mais com frequência. Os países pobres, com estreita margem de manobra, serão sempre os primeiros e os mais duramente afetados.

 

Dado os fatos, precisamos nos organizar com mecanismos mais estruturados para atender a população impactada de uma forma mais eficiente e rápida.

 

Esta semana estamos vivendo um dos piores acidentes de trabalho, se não for o pior, que afetou milhares de pessoas em Brumadinho, retirando a vida de muitos habitantes da região. Este não me parece um caso de tragédia provocado por mudanças climáticas, mas sim de irresponsabilidades de vários executivos e representantes do governo envolvidos na cadeia do minério. Não vou entrar nesta questão de responsabilidade. Meu ponto aqui é analisar a estratégia de atuação para atender as vítimas, muito similar às tragédias climáticas.

 

Explico melhor.

 

O assunto virou pauta em todas as redes sociais, gerando uma grande mobilização. Num gesto de solidariedade muitos se mostraram disposto a doar tempo, água, comida, produtos de limpeza, carinho e tantas outras demandas. Logo apareceram mensagens distorcidas informando que “não precisamos mais disso e sim mais daquilo”. Muitas pessoas ficaram confusas e não sabiam mais como ajudar.

 

Em tragédias como esta, ter um local, ou mesmo um hub digital com o mapeamento das necessidades, em parceria com órgãos públicos e sociedade civil organizada, é o primeiro passo. Assim facilitamos o controle das doações e evitamos desperdícios. Uma vez que já sabemos que este tipo de tragédia acontecerá com frequência, seja causada por eventos climáticos ou por irresponsabilidade de terminados seres humanos, que tal nos adaptarmos e criarmos iniciativas mais eficientes?

 

No caso de Brumadinho pude acompanhar de perto a iniciativa de um de meus clientes, a Uber. Usando um dos seus principais ativos (capacidade logística e poder de alcance de milhares de pessoas), foi lançada uma ação para que as pessoas pudessem contribuir para ajudar Brumadinho de uma forma simples e fácil. Via plataforma Uber Eats qualquer pessoa pode doar itens variados (alinhados com a demanda da região) e a empresa entrega na região afetada.

 

Iniciativas como esta também servem para atender aos constantes furacões na América do Norte e Central, por exemplo. É o que chamamos de ação “plug&play”, ou seja, ações planejadas com antecedência para serem implantadas rapidamente em casos de emergência. Muitas empresas já estão neste caminho. As empresas de tecnologia têm a seu favor um grande poder para transformar as ações de solidariedade em iniciativas cada vez mais exponenciais. É o marketplace do bem.

 

Seja por irresponsabilidade das autoridades ou mesmo a força da natureza, infelizmente cada vez mais situações emergenciais vão ocorrer, causando grande impacto na vida das pessoas. Precisamos nos adaptar.