Tendências de Inovação em Saúde que vi no X MED 2020

Wal Flor

04 de dezembro de 2019 | 13h46

Por Bettina Grajcer

A saúde passa por um momento único de transformação. Será o próximo setor a ser disruptado. As novas tecnologias evoluem rapidamente, revolucionando todo o ecossistema de atenção à saúde, do uso de inteligência artificial (IA) para diagnóstico precoce de doenças, passando pelas cirurgias por robótica até a utilização de telemedicina no atendimento de regiões remotas.
Para conferir as novidades do tema, fui à San Diego participar do Exponential Medicine, um dos principais eventos de inovação em saúde no mundo. O evento é uma iniciativa da Singularity University, Universidade do Vale do Silício fundada com o apoio do Google e da Nasa, que acredita na união das pessoas para imaginar juntas um futuro de abundância para todos.
Neste encontro pude mergulhar no universo de tecnologias disruptivas e novas formas de pensar a saúde, com a proposta de gerar insights e fomentar soluções para criar um futuro melhor para a saúde e medicina no Brasil. Compartilho aqui trechos do que ouvi por lá e alguns aprendizados que trouxe de minha vivência nestes dias com os principais pensadores, pesquisadores, executivos e organizações do mundo todo:

1. Não é sobre viver até os 120, mas, como iremos viver até lá
Com o avanço na detecção precoce de problemas de saúde e na descoberta de novos tratamentos, a população irá viver cada vez mais. Como adicionamos mais 20 a 30 anos saudáveis a nossas vidas? Precisamos redefinir a forma como pensamos a saúde: do cuidado a doentes, para o atendimento a saúdáveis; de uma medicina reativa a uma medicina proativa e preventiva que nos possibilite não apenas viver mais, mas viver mais e melhor.

2. O corpo como fonte de big data
Os wearables (como o apple watch) e novos devices como breathables, sweatables e insideables são ferramentas valiosas de cuidado à saúde. Os sensores possibilitam a coleta de dados à distância, em tempo real e trazem uma riqueza de informações que favorecem o cuidado pessoal. Mudanças de hábito são difíceis, somos mais honestos com nossos celulares do que com nossos médicos.

3. O paciente é o responsável pela sua saúde
Com o acesso a seus dados pessoais, o paciente terá cada vez mais autonomia no monitoramento e atenção com sua saúde. Aplicativos de saúde que utilizam IA já podem fazer o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, monitorando por texto sinais clínicos (como a pressão arterial e batimentos cardíacos), possibilitando a intervenção médica precoce quando necessário e atuando preventivamente com a recomendação de alimentos e atitudes saudáveis. A tecnologia possibilita o crescimento em escala do tratamento das doenças crônicas, assim como a prevenção dos fatores de risco associados.

4. Seu histórico de saúde acessível a um clique
Todos concordam que o paciente deve ser o dono de seus dados de saúde. Plataformas que integram as diferentes fontes de informação vem se desenvolvendo e sofisticando. Já é possível encontrar em um só lugar todos os exames laboratoriais, histórico de consultas médicas, internações, dados pessoais (coletados nos devices), além de compras realizadas em farmácias. O desafio atual é empoderar o paciente para coletar os seus dados.
Precisamos digitalizar nossos serviços de saúde. A China já tem todo o sistema de saúde público digitalizado. Em uma só plataforma com histórico médico, agendamento e teleconsulta, acessível para pacientes, médicos e gestores. A tecnologia pode ser um fator determinante na qualidade de vida. Precisamos baixar o preço de celulares e serviços de dados (5G, rápido por favor!), e torná-los acessíveis a todos.

5. Estamos entrando na era dos genomas, os tratamentos serão cada vez mais individualizados
O sequenciamento genético já permite a detecção, com precisão, de riscos de doenças no futuro, como câncer, doenças cardíacas ou neurodegenerativas, além de indicar reações a medicamentos e necessidades nutricionais. Com o uso crescente, seu custo irá diminuir (atualmente, uma análise custa em torno de U$1500) e todos teremos nossa análise genética realizada. Os tratamentos médicos serão cada vez mais precisos. A manipulação da expressão dos genes possibilitará o tratamento preventivo individualizado. Ao invés de basear-se em estudos populacionais, ou na tentativa e erro, a decisão de indicar um medicamento, estará baseada em uma análise específica de efetividade para cada paciente. E cada paciente terá sua combinação ideal de ativos (que poderá ser ofertada em um único comprimido, impresso em 3D em sua própria casa!).

6. A Inteligência Artificial vai transformar os modelos de trabalho
A IA vai substituir os radiologistas? Não, os radiologistas que usam IA irão substituir os radiologistas que não usam. Várias tarefas médicas passarão a ser realizadas por IA, de forma mais rápida e mais precisa. A IA possibilitará que tarefas realizadas apenas por médicos possam ser tranquilamente realizadas por outros profissionais. Já existem robôs que escrevem artigos científicos em7 minutos, via análise de dados, fazendo com que as novas descobertas possam ter aplicação imediata na prática. No entanto, a IA deve complementar o trabalho humano, e não substituí-lo. Na área da saúde, um dos grandes desafios da IA é a falta de empatia. Os humanos digitais tentam aproximar os chatbots do comportamento humano, mas, ainda é necessário desenvolver formas mais sensíveis de se comunicar com as pessoas, no momento de comunicar uma má notícia por exemplo.

7. O Blockchain irá acelerar a integração dos conhecimentos
Não podemos continuar trabalhando dentro de “silos”. Precisamos colaborar para resolver os grandes problemas da saúde no mundo. O uso de blockchain possibilitará o acesso a dados pessoais de forma confiável e verificada. Facilitará o encontro de profissionais qualificados em áreas específicas (médicos poderão ser encontrados e realizar atendimento domiciliar com um app estilo Uber Health). A confiança é essencial. Ao invés de trabalhar individualmente, podemos evoluir, criando soluções em plataformas que possam ser compartilhadas e ganhar escala.

8. O modelo de saúde precisa estar baseado no serviço em casa e não no hospital.
O que nos matava anteriormente, como ferimentos, doenças infecciosas ou relacionadas à falta de saneamento podiam ser resolvidas em um hospital. Os principais problemas de saúde atuais, como as doenças crônicas não transmissíveis, não são tratados em um hospital. Alguns exames já podem ser feitos em casa. Podemos ensinar o celular a fazer um exame de urina, e alguns diagnósticos passarão a dispensar médicos. Na China, cabines nas principais vias das cidades já oferecem consultas via telemedicina, com oferta de medicamentos no mesmo local. Novos players de saúde, como a Amazon e Google tem investido fortemente na área, buscando soluções baratas e em escala. A saúde vai sair do hospital e ir para a casa, para o celular. Os sistemas de saúde precisam se reinventar. As empresas de saúde que sobreviverão no futuro também.

9. O microbioma intestinal como cura das doenças crônicas no futuro! (Será?)
70% do nosso sistema imune está no trato gastrointestinal. Brócolis para prevenir gripe, consumo de soja para câncer de mama, pesquisas recentes comprovam que a comida também pode ajudar a combater doenças. O contato precoce com sujeira e alérgenos é recomendável! Diversos pesquisadores têm se dedicado a estudar a relação entre o microbioma e as doenças, e apostam que esta será a grande revolução na saúde. Estudos mostram que o rebalanceamento do microbioma pode ser utilizado para influenciar o comportamento e potencialmente tratar doenças como a depressão. Terapias envolvendo o microbioma (transplantes fecais) já foram aprovados pelo FDA e são uma área a se observar.

10. A tecnologia transforma a ficção científica em realidade
Para os mais tecnológicos, a área da saúde está repleta de inovações que vão além do que poderíamos imaginar. Exames de ECG já podem ser realizados pelo celular. Pequenos robôs na circulação podem fazer o diagnóstico de câncer de pulmão precocemente e tem grande chance de sucesso de mover a curva da doença. Em cirurgias, a utilização de projeção em 3D permite a sobreposição dos exames de imagem no paciente. Um cirurgião já pode acompanhar remotamente um procedimento cirúrgico pelo seu avatar em holograma. Já se estuda a fabricacão de um vírus para combater o câncer impresso em 3D. Os Chatbots telepáticos já são realidade. E a pílula para rejuvenescimento, que ainda não foi inventada, será ciência ou ficção?

11. Nem tudo é tecnologia
O contato do médico com o paciente pode ser decisivo para bons resultados em saúde. Tecnologias como o histórico médico eletrônico diminuem o tempo de consulta para levantamento de dados, tempo que pode (e deve) ser investido no paciente. Novas formas de tratamento vem sendo utilizadas com sucesso: musicoterapia, terapia visual pelas artes e até o uso de animais (sim! ter animais em casa ajuda a evitar doenças). Estudos recentes elencaram a fórmula para manter o cérebro saudável e evitar Alzheimer (os americanos adoram um acrônimo e, confesso que também gosto, facilitam a memorização, apesar de não funcionarem muito bem em português).
SHIELD: um escudo para a saúde do cérebro:
Sleep – Durma mais
Handling Stress – Medite
Interactions with others – Veja mais sua família e amigos
Exercise – Mexa-se
Learn new things – Aprenda coisas novas
Diet – Coma melhor
E escolha bem seus ancestrais!

12. O futuro é das Start Ups
Já pensou ligar o computador e receber uma mensagem dizendo “você me parece preocupado hoje”? Isto já é possível por meio de um sensor que utiliza IA para identificar suas emoções pela leitura de face e cuida da sua saúde como um assistente médico pessoal. Já podemos também colocar um dispositivo que emite pulsos que simulam um estado de meditação, equilibrando os dois lados do cérebro e diminuindo a dor de pacientes crônicos. Estas foram algumas das start ups que conheci no laboratório de inovação do evento. Para quem quer empreender, a dica é: faça a pergunta certa: como a tecnologia pode gerar saúde e vitalidade para as pessoas? (Adorei o exemplo do empreendedor que ao planejar uma viagem para a Lua, ao invés de perguntar “Como podemos cultivar alimentos na Lua? perguntou “Por que necessitamos de alimentos?”). Empreeendedores de diversos países tem desafiado o status quo e criado empresas realmente revolucionárias. Para os interessados em investir, a área é bem promissora!

13. Storytelling para mudança de comportamento
Como incentivar pacientes a se engajarem com hábitos saudáveis? As conexões entre pessoas e dados serão o grande motor da mudança. Nos engajamos com histórias, precisamos trazer isto para a saúde. Algumas plataformas já armazenam seus dados médicos e transformam em um storytelling compreensível e compartilhável, com vídeos realistas, com qualidade de cinema, que facilitam a compreensão das doenças e o engajamento do paciente com o tratamento (afinal, um gráfico de pizza nunca motivou ninguém a mudar de atitude). Na educação médica, campanhas possibilitam a transmissão de informações de forma rápida e eficiente. A comunicação terá cada vez mais um papel ativo para ser o nudge (“cutucão”) na mudança de hábitos.

Foram 4 dias de imersão no universo da inovação na saúde. Estes são apenas alguns highlights da minha perspectiva. Para quem quiser se aprofundar, o evento foi transmitido por stream e está disponível no link: https://exponential.singularityu.org/medicine/xmed-live/
Estamos realmente vivendo uma era de revolução na medicina, surge uma nova visão, com foco na saúde e não na doença. A natureza das doenças mudou. Os sistemas de saúde continuam os mesmos. Precisamos criar novos formatos para a jornada do paciente. As tecnologias possibilitarão a individualização e a ampliação do acesso em escala, e as empresas precisam estar conectadas com este novo mindset.
Precisamos criar um sistema de saúde que seja sustentável. Os determinantes sociais (como acesso à moradia e a uma alimentação segura) já são considerados uma questão de saúde e precisam ser agregados ao atendimento. Diminuir os custos dos serviços de saúde e torná-los acessíveis a todos é o desafio. O SUS oferece um serviço de saúde público universal, e, ainda que tenhamos muitos desafios na qualidade do atendimento, o modelo é um dos mais evoluídos no mundo, temos que valorizar!
Desde minha graduação com médica tenho me dedicado a desenvolver soluções na área da prevenção e da saúde pública. Acredito que unir esforços para criar uma agenda de inovação em saúde no Brasil é muito importante e que estamos em um momento único para avançar neste sentido em nosso país!
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