Recuperar credibilidade

Recuperar credibilidade

Está reaberta a temporada para se saber se o Banco Central será mais coerente no manejo da política de juros e menos confuso na sua comunicação com o mercado

Celso Ming

20 de janeiro de 2015 | 21h00

Nesta quarta-feira, acontece a primeira reunião do Copom do ano, a primeira, também, sob a nova orientação da política econômica.

Na semana passada, o governo definiu que prevalecerá o realismo tarifário. É o consumidor que será chamado a enfrentar o vaivém dos preços e não mais o contribuinte, via transferências do Tesouro – jogo viciado que cria enormes distorções.

A consequência imediata é a esticada dos preços, que terá de ser combatida pelas políticas fiscal e monetária (política de juros). Em compensação, a condução da política econômica fica mais confiável, porque deixará de ficar sujeita a arbitrariedades.

O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, mantido no cargo, vem prometendo mão pesada contra a inflação que, em 2014, atingiu 6,41% e ameaça estourar o teto da meta este ano. Isso sugere que os juros continuarão a subir. Mas o BC perdeu muito de sua credibilidade ao longo dos últimos quatro anos. Agora se espera que, para garantir a eficácia de sua política, passe a agir com mais consistência.

Durante o primeiro mandato da presidente Dilma, o BC mostrou comportamento vacilante. De agosto de 2011 até outubro de 2012, por exemplo, dedicou-se a derrubar os juros mesmo sem ter indicações de que a inflação tivesse perdido força. Essa medida atendeu à argumentação heterodoxa de que a política de juros tem baixa eficácia no combate à inflação e que, por isso, o mais importante consistiria em manejá-la para complementar a chamada política anticíclica do governo e ajudar o crescimento econômico, e não para combater a inflação.

Esse experimentalismo desembocou no que já se sabe. Em abril de 2013, o BC foi obrigado a puxar novamente pelos juros para impedir o descontrole. Terminou 2014 com os juros básicos (Selic) nos 11,75%, nada menos que cinco pontos porcentuais acima da inflação, enormidade que, no entanto, não conseguiu segurar a escalada de preços.

No final do ano passado, o Banco Central produziu alguns curtos-circuitos na comunicação com o público, instrumento essencial na condução de um regime de metas de inflação, que pressupõe sintonia com o mercado.

O comunicado emitido após a reunião do Copom realizada em 3 de dezembro garantia que novos apertos dos juros seriam realizados “com parcimônia”. É o toque de harpa que indica a disposição de aumentar os juros só em doses mais baixas. Apenas duas semanas depois, sem que nada de novo tivesse acontecido, Tombini esqueceu o que escreveu e mudou o arpejo. Indicou que o BC “fará o que for necessário para combater a inflação” e, nessas condições, rifou a parcimônia. Também não ficou claro como a instituição passaria a levar em conta os fatores fiscais, cuja desarrumação sabidamente é o maior fator de inflação.

Oficialmente, a diretoria vem indicando que não se mete em questões fiscais, atribuição do Ministério da Fazenda. Isso implica tomá-las apenas como dado de realidade para definição de sua política de juros. No entanto, se fosse assim, a autoridade monetária não faria as apostas que começaram a ser feitas a partir de agosto de 2013, quando, repetidas vezes, passou a avisar que “o balanço fiscal converge para a neutralidade no horizonte de referência”. Traduzindo: para o BC, a política fiscal estava sendo arrumada para deixar de produzir inflação. Ora, ninguém viu essa arrumação. Ao contrário, a política fiscal vinha causando todos os estragos conhecidos. Ou seja, o Banco Central não estava sendo sincero.

Agora, o governo federal passou a dar os primeiros sinais de que pretende tratar as contas públicas com mais austeridade, o que transformaria a política fiscal em aliada no combate à inflação. Mas, ainda assim, se o BC passa a dizer que agora será diferente, continua transmitindo sua aposta, e não tomando o resultado como dado de realidade, porque, a rigor, ainda não há resultados.

Enfim, está reaberta a temporada para se saber se o Banco Central será mais coerente no manejo da política de juros e menos confuso na sua comunicação com o mercado.

 

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