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Os riscos do xerife do euro

Celso Ming

28 de maio de 2011 | 16h30

Dia 17 de maio, os ministros de Finanças da área do euro saíram de uma das tantas reuniões que vêm fazendo para encontrar uma saída para os problemas do bloco. E distribuíram afirmações carregadas de eufemismos.

Disseram que a Grécia finalmente deveria passar por uma “reestruturação branda” de sua dívida. E sinônimos para essa expressão pipocaram nas entrevistas: “ajuste voluntário”, “redefinição ordenada do perfil da dívida”, “certa reorganização do passivo”.

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Trichet. Não à reestruturação (FOTO: KAI PFAFFENBACH/REUTERS)

Enfim, para eles não havia solução senão admitir certo calote na dívida. No dia seguinte, nova reunião de emergência foi convocada, desta vez, com o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet. Foi um encontro cercado de sigilo a que nenhum estranho teve acesso. Mas a discrição foi frágil o suficiente para que depois os jornais avisassem que Trichet fez dramática exposição da situação. E finalizou vetando peremptoriamente qualquer reestruturação da dívida da Grécia.

Reestruturação da dívida é, até certo ponto, uma medida normal diante de dificuldades extremas que impedem um devedor de honrar compromissos firmados em contrato. O próprio mercado financeiro define acréscimos de juros, entendidos como uma espécie de seguro contra inadimplências. Ou seja, esses acréscimos (índice de risco) já pressupõem a eventualidade de uma renegociação.

Mas, afinal, o que há de tão terrível nas finanças da área do euro (veja no Confira) para que um procedimento previsível em finanças internacionais, a reestruturação de dívidas, devesse ser sumariamente rejeitado pelo chefão do BCE?

Matéria publicada dia 25 na edição em inglês da revista alemã Der Spiegel (ECB’s balance sheet contains massive risks) pode não dar toda a resposta a essa dúvida, mas traz boas pistas.

Lá está descrito como o BCE ficou com montanhas de títulos podres do setor privado para socorrer os bancos europeus. Estes entregavam os títulos como garantia (colateral) em troca de sangue fresco. Mais ainda: o próprio BCE nas suas operações com os bancos e com os demais bancos centrais europeus descontou títulos soberanos de países sócios da zona do euro, aceitando para eles as mesmas condições de títulos AAA, como os da dívida do Tesouro da Alemanha. Só em títulos da dívida da Grécia, presume-se que o BCE tenha em seus livros cerca de 47 bilhões de euros (US$ 67 bilhões) pelo valor de face. Afora isso, refinanciou os bancos gregos em 90 bilhões de euros (ou US$ 128 bilhões). Se os livros do BCE contêm esse lixo da Grécia, imagine-se o que não contêm do resto.

A questão mais grave é um buraco institucional. O BCE não é a única instituição responsável pelo sistema do euro. Cada membro mantém seu próprio banco central que juntamente com o BCE formam o Sistema Monetário Europeu. Ou seja, tanto o BCE como os demais bancos centrais são cossolidários pelo que acontece no sistema. Com uma particularidade estonteante: o BCE não tem mandato nem para supervisionar nem para monitorar os bancos centrais satélites. E esse é o problema. Ninguém sabe o valor real dos papéis que estão nos ativos desses bancos centrais nem tampouco o BCE sabe o tamanho dos riscos a que está exposto.

Ou seja, além do rombo no patrimônio dos bancos credores e do efeito contágio que um “calote brando” da dívida grega provocaria, o BCE teria de lidar com uma conta cujo tamanho não é mensurável.

CONFIRA

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A tabela traz a situação econômica e financeira dos 17 países da zona do euro. Itália e Bélgica são fortes candidatos a seguir o PIG (Portugal, Irlanda e Grécia) e, como a Espanha, mais expostos a eventual contágio. Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia formam o bloco duro da área.