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Tsunami não é guerra

Celso Ming

26 de março de 2012 | 20h00

 O governo brasileiro conseguiu pautar reunião de alto nível no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) para discutir o câmbio como fator de concorrência desleal no comércio exterior, que começa nesta terça-feira.

Por ser a organização que cuida da lisura do comércio global, a OMC é o fórum mais adequado para definir quando e em que condições o câmbio poderia ser considerado instrumento de práticas condenáveis no comércio.

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Dilma. ‘Sem agressão proposital’ (FOTO: DIDA SAMPAIO/AE)

O governo Dilma tem feito denúncias sobre a manipulação do câmbio pelos países ricos contra interesses comerciais do Brasil. Até agora, essas reclamações vêm sendo sistematicamente rechaçadas por autoridades dos países centrais, em parte pela falta de foco do próprio governo brasileiro.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, por exemplo, foi o primeiro a denunciar a tal guerra cambial. A presidente Dilma prefere outro termo: tsunami monetário, provocado pelos grandes bancos centrais que inundam os mercados com liquidez – algo que, por sua vez, tende gerar a valorização das moedas dos países emergentes (alta do dólar). Em entrevista publicada neste final de semana pela Veja, ela pareceu recusar o diagnóstico do ministro Mantega. Reconheceu que a atuação dos grandes bancos centrais (Fed e BCE) não pode ser vista como “agressão proposital” às demais nações.

Guerra cambial e tsunami monetário parecem troca de seis por meia dúzia, mas não o são. Uma coisa é manipular o câmbio, ou seja, intervir diretamente nos mercados de moeda para provocar desvalorização da própria moeda e, assim, tirar competitividade do produto estrangeiro. Está mais para o que fazem o Banco do Japão, o Banco Nacional da Suíça e o Banco do Povo da China, que se põem a comprar moeda estrangeira em seus próprios mercados, aumentam a oferta e evitam a megavalorização da própria moeda, o que tira competitividade do produto nacional.

E coisa bem diferente é o tal tsunami monetário de que fala a presidente Dilma. Trata-se da emissão de dólares pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ou de euros pelo Banco Central Europeu (BCE). O objetivo do Fed é recomprar títulos do Tesouro americano nos mercados para melhorar o crédito interno e reativar a economia. E a intenção do BCE é criar mais mercado para os títulos dos Tesouros europeus, que vinham sendo rejeitados. São decisões que pouco têm a ver com guerra cambial.

Não dá para dizer que essas enormes emissões de moeda, do Fed e do BCE, estejam provocando desvalorização do dólar e do euro, respectivamente, em detrimento do real ou, eventualmente, de outras moedas. Ao contrário, estancaram a crise tanto dos Estados Unidos como da área do euro e reverteram notórias perdas de valor, tanto do dólar como do euro. Em vez de desvalorização, estão provocando valorização do dólar e do euro. Não podem ser consideradas manobras de guerra cambial. Mas produziram enorme liquidez global – boa parte desembarcada no Brasil – e que ajudam a afundar o real.

O sucesso das operações do Fed e do BCE como políticas estancadoras da crise global mostra a baixíssima probabilidade de que essa atuação dos grandes bancos centrais seja tida como desleal e condenável no comércio exterior, como desejaria o governo Dilma.

CONFIRA

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Aí está o comportamento do dólar ante uma cesta de seis moedas.

São as commodities. Para o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman a valorização do real não se deve nem à guerra cambial nem aos tsunamis monetários e, tampouco, à especulação com juros. Deve-se “a uma melhora dos termos de troca (a razão entre os preços das coisas que exportamos e os preços das que importamos)” e à forte alta das commodities no comércio global.

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