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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Não é o que parece

Celso Ming

20 de abril de 2012 | 20h00

O governo federal já não acredita em que os juros altos no Brasil sejam os principais fatores de atração de capitais e de valorização do real, responsáveis, por sua vez, pela perda de competitividade do setor produtivo.

A presidente Dilma, por exemplo, insiste em que o principal fator é o tsunami monetário provocado pelos grandes bancos centrais ao emitir volumes colossais de moeda, situação de farta liquidez que acaba desembarcando por aqui. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, se refere ao fenômeno com outro termo: guerra cambial.

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E agora, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, acaba de reconhecer que as tão denunciadas operações de arbitragem com juros, cujo objetivo é tirar proveito dos juros mais altos pagos no Brasil, são só fatores subsidiários nesse processo – como apontou matéria desta sexta feira, de Claudia Safatle, no jornal Valor Econômico.

Não está ao alcance do governo brasileiro impedir emissões de moeda dos grandes bancos centrais, essenciais para estancar os efeitos da crise global. As reclamações da presidente Dilma e do ministro Mantega não passam de esperneio.

Seria, por sua vez, tiro no pé tentar bloquear a entrada de capitais quando o País precisa atrair poupança externa para ajudar a cobrir o rombo crescente nas contas externas. E há mais do que simples dúvidas de que a atuação do Banco Central na compra de moeda estrangeira esteja atingindo o objetivo pretendido. Ao contrário, há razões para crer em que esteja acirrando o efeito oposto.

O Banco Central abandonou seu compromisso anterior de comprar moeda estrangeira só para evitar excessiva volatilidade (comprar apenas “sobras”). Passou a atuar para provocar um rali nas cotações do dólar no câmbio interno. Somente nos 16 dias úteis de abril (até esta sexta), a alta do dólar foi de 2,5%. Com isso, as reservas externas saltaram de US$ 352 bilhões, ao final de dezembro, para US$ 371 bilhões, até dia 19 – crescimento de 5,4%.

Paradoxalmente, o aumento da agressividade do Banco Central na compra de dólares, com o objetivo de provocar desvalorização do real – e não mais de impedir a volatilidade das cotações –, tende a atrair mais capitais, à medida que acentua a percepção de solidez da economia. Trata-se de uma operação enxuga gelo, com aumento do gelo a ser enxugado. Em certo aspecto, isso também passou a ser reconhecido pelo secretário Nelson Barbosa.

Enfim, as providências tomadas pelo governo nos últimos 12 meses para devolver competitividade à indústria esbarram em enormes limitações e mesmo em gols contra, como a produzida pela exuberância das reservas externas. Dirigentes da indústria, grande beneficiária dos favores oficiais, reclamam do seu baixo alcance prático, de sua transitoriedade e de sua extensão a apenas um punhado de eleitos.

O fortalecimento da indústria brasileira em pleno processo de esvaziamento depende da intensificação de dois fatores: das reformas destinadas a baixar os custos de produção e de mais investimentos em infraestrutura. E ambos dependem do forte aumento da poupança interna.

Na prática, o fortalecimento do setor produtivo exige guinada importante no modelo de política econômica, que hoje privilegia o consumo e não o investimento.

CONFIRA

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O gráfico mostra a evolução do Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), levantado mensalmente pela Confederação Nacional da Indústria.

Mais extintores. Embora os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) não tenham avançado o volume de sua nova contribuição para o Fundo Monetário Internacional, sua diretora-gerente, Christine Lagarde, disse nesta sexta-feira que, com todos os recursos já apalavrados, conta com US$ 1 trilhão para suas linhas de socorro. É um reforço em extintores, mas que não elimina o risco de grande incêndio na área do euro.

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