Intoxicação

Intoxicação

Celso Ming

25 de dezembro de 2012 | 16h30

Apesar do fracasso do PIB e da esticada da inflação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, insiste em que a política econômica do governo Dilma está correta e que, um pouco mais tarde do que o inicialmente esperados, os resultados virão.

Para explicar o atraso, desenvolveu a teoria de que a economia está agora em processo doloroso e temporário de desintoxicação e que, uma vez completado, tudo será diferente – e melhor.

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Mantega. É esperar para ver (FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO)

No artigo que assinou na edição de domingo do Estado, Mantega explica  que o setor produtivo estava viciado (e ainda está) em juros e em câmbio valorizado (baixa cotação do dólar). Os juros altos, diz o ministro, contaminaram o sistema produtivo porque as empresas passaram a contar mais com o retorno financeiro (aplicações no sistema bancário) do que com o operacional. Da mesma maneira, o dólar barato havia empurrado as empresas ao fornecimento externo de máquinas, componentes, peças, conjuntos e capital de giro (empréstimos em moeda estrangeira). A desvalorização cambial de cerca de 20% ao longo de 2012, aponta o ministro, provocou elevação de custos e prejudicou o resultado das empresas brasileiras.

No entanto, prevê o ministro da Fazenda, a persistência de um quadro de juros baixos e de moeda mais desvalorizada levará as empresas a se livrarem da dupla dependência. É esperar mais um pouco para ver.

A teoria da intoxicação está correta. As empresas vinham operando à base de consumo excessivo de substâncias tóxicas. O problema de Mantega e do governo Dilma é que não conseguem se dar conta de que toda a economia, e não só as empresas, está sendo atacada por outros tóxicos tão ou mais sérios do que o juro alto e o câmbio baixo demais.

Tudo começou pela estratégia de privilegiar o consumo e não o investimento. A formação de poupança vem sendo fortemente desestimulada. Desde 2003, o governo deu pouca importância ao desenvolvimento da infraestrutura e, neste momento, enfrenta apagões por toda parte: na área de energia elétrica, na telefonia, nos transportes rodoviários, nos aeroportos, nos portos, na produção de petróleo e de etanol.

As agências reguladoras, encarregadas de manter os sistemas funcionando e de cobrar eficácia em cada setor, foram confiadas a compinchas políticos, recrutados até por uma secretária da Presidência da República em São Paulo – como se viu pelos escândalos revelados pela Operação Porto Seguro.

Ainda na segunda-feira, o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, reconhecia que “faltou filtro” nessa área. E acrescentou: “É doloroso ver companheiros nossos se enriquecendo ao longo desses anos”.

Ou seja, a intoxicação da economia brasileira, responsável pela sucessão dos pibinhos, pela estocada da inflação e pela falta de investimentos, é mais ampla e mais profunda. Todo o governo Dilma está precisando de um estágio na irmandade dos Alcoólicos Anônimos para obter ajuda e se livrar dessas dependências.

O risco é o de que passe mais um ano sem os resultados esperados porque o governo partiu de um diagnóstico parcial do problema e demorou mais do que precisa para enfrentar a intoxicação do sistema.

CONFIRA

No gráfico, a mais recente projeção do crescimento do PIB para 2012 e 2013, feita por cerca de cem instituições consultadas pela pesquisa Focus, realizada pelo Banco Central.

Incerteza. Esses números refletem maior incerteza do mercado. Duas semanas antes, as mesmas instituições compravam as projeções do governo, de um avanço perto de 4,0%. No Relatório de Inflação divulgado dia 20, o Banco Central também foi cauteloso. Projetou crescimento em 12 meses de 3,3%, mas não incluiu em suas contas o último trimestre do ano.