Ladran, Sancho

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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Ladran, Sancho

Celso Ming

23 de outubro de 2013 | 20h00

Dom Quixote, seu fiel escudeiro Sancho Pança e o esquálido cavalo Rocinante acabavam de sair da terra de origem para as conquistas e lutas contra os gigantes. Ao passarem pela primeira aldeia, a cachorrada saiu latindo atrás deles. E Dom Quixote: “Ladran, Sancho, señal que cabalgamos”. Esta frase, tão tipicamente quixotesca, não está no livro de Cervantes. Parece ter sido tirada de versos de Goethe, escritos em 1808.

Pode também ser evocada agora, depois do relativo sucesso do leilão do Campo de Libra, em meio a vociferações de grupos aferrados a pontos de vista antigos e sem sentido.


Dom Quixote. No traço de Picasso (REPRODUÇÃO)

O principal avanço é o de que, apesar das vacilações, um governo que se intitula de esquerda afinal começa a aderir ao que até anteontem considerava o pior da sua relação com o setor privado, tão pior considerava que chamava de privataria.

Ainda é uma adesão envergonhada e constrangida, porque em nenhum momento nem a presidente Dilma nem os principais figurões do governo se atrevem a reconhecer que esse é o caminho da privatização sadia. Ao contrário, para efeito externo avisam que concessões de serviços públicos e entrega de exploração de petróleo a empresas privadas estrangeiras podem até ter alguma semelhança com os processos de privatização colocados em prática pelos neoliberais, mas não têm nada a ver com essas coisas horríveis, porque, argumentam, como a presidente Dilma argumentou, só agora o Estado e a sociedade são os grandes beneficiários.

Embora tenha enfrentado com competência disseminadas escaramuças jurídicas e manifestações de rua contrárias à licitação de Libra, falta sinceridade no governo Dilma. Não reconhece que o Tesouro está no bagaço e que, se é para dotar a economia de uma rede moderna de infraestrutura e de serviços públicos, é preciso convocar para isso o setor privado. Bem verdade, o setor privado não é Santa Casa de Misericórdia, que se dedica a benemerências. O setor privado só entra na parada se tiver retorno satisfatório. Mas, afinal, o que é mais republicano: remunerar adequadamente o setor privado que investe, da emprego e opera serviços públicos; ou permitir (e até incentivar) que o Estado seja carcomido por carunchos?

O governo também deveria ser mais explícito em reconhecer que essa parceria governo-setor privado é de forte interesse para o setor público e para a sociedade, pelo menos por quatro razões: (1) porque gera infraestrutura e serviços públicos que antes não existiam e estes, por sua vez, se tornam multiplicadores de produção e de emprego; (2) porque, apesar dos pesares, no que sabe fazer melhor do que os administradores públicos, o setor privado tende a ser mais eficiente; (3) porque, com mais concessões e mais licitações, o Estado ganha mais impostos, mais royalties e mais contribuições que pode utilizar no cumprimento de seus programas democraticamente escolhidos; e (4) porque contribui para o investimento estrangeiro de boa qualidade, numa situação em que a poupança interna é uma insignificância e as contas externas estão no vermelho.

Apesar dos latidos que provêm dos dois lados da estrada, a caravana passa. Está em seu poder avançar mais e ganhar ainda mais com a nova postura, se improvisar menos e se confiar o processo a profissionais.

CONFIRA:

O gráfico mostra a trajetória das cotações do dólar em reais desde agosto. Foi uma valorização de 4,07%.

Não foi só isso. Nesta quarta-feira, em exposição a investidores de Cingapura, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse que a valorização do real obtida nas últimas semanas só foi possível graças à atuação do Banco Central que, assim, evitou efeito câmbio sobre a inflação. Não foi só isso. O principal fator que reverteu a desvalorização do real foi a decisão do Fed (o banco central dos Estados Unidos) de adiar a reversão da política de emissão de dólares.

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