A anemia da indústria

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A anemia da indústria

As estatísticas do IBGE, divulgadas nesta quinta-feira, apontam queda da produção de 0,7% em novembro em relação a outubro e de 3,2% em 12 meses

Celso Ming

08 de janeiro de 2015 | 21h00

Os informes sobre o desempenho da indústria continuam decepcionantes.

As estatísticas do IBGE, divulgadas nesta quinta-feira, apontam queda da produção de 0,7% em novembro em relação a outubro e de 3,2% em 12 meses.

O resultado de 2014 pode ser um pouco melhor, mas nem tanto. Os cerca de 100 consultores auscultados semanalmente pelo Banco Central (Pesquisa Focus) estimam a retração de 2,5% em relação a 2013. Se esse desempenho se confirmar, será, por si só, fator de arrasto ruim para 2015.

INDUSTRIA

Também nesta quinta-feira foram divulgadas as estatísticas do setor de veículos, o mais beneficiado pelo governo Dilma nos quatro anos do seu primeiro mandato. Em 2014, o setor apresentou queda de 15,3% da produção e de 7,1% das vendas, apesar da generosa redução de IPI com que foi contemplado. No ano passado, como apontam as estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, as exportações de automóveis de passageiros recuaram, em valor, nada menos que 41,8% em comparação às de 2013.

As perspectivas não encorajam. A indústria de veículos tem uma capacidade de produção próxima dos 4 milhões de unidades anuais, mas o mercado não comporta mais do que 3,8 milhões, incluída a parcela das exportações.

Até 2017, estará em condições de montar 6 milhões de unidades, sem perspectiva de melhora das vendas internas, porque o momento é de aperto nos cintos e de espera de que o nível de endividamento das famílias se recupere. Também não ajuda a situação dos parceiros do Mercosul, especialmente da Argentina.

O novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, assumiu o cargo na quarta-feira com um discurso meia boca. Reconheceu que a indústria de transformação está desidratada, envelhecida e pouco competitiva. Em 30 anos, lembrou ele, a participação no PIB encolheu de 25% para 14%.

Mas Monteiro não foi capaz de apontar nenhum dos fatores que produziram esse processo de anemia que, obviamente, tem a ver com a política industrial adotada nos últimos 12 anos. Dois dias antes, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fora bem mais enfático, quando criticou as políticas discricionárias e autofágicas do BNDES e as desonerações parciais da folha de pagamentos empreendidas ao longo do primeiro período Dilma.

Monteiro fez bem em observar que a indústria não pode voltar-se só para o mercado interno, a grande meta do PT que pregava a criação “de grande mercado de massas”, mas falhou em sua implantação. Ele também está certo quando observa que lá fora há “um PIB equivalente a 32 Brasis” à espera de conquistadores. Mas ignorou o fato de que a indústria do País só terá futuro se conseguir integrar-se às cadeias globais de produção e distribuição. Isso implica abandonar as práticas excessivamente protecionistas em que se encontra enroscada.

A recuperação da indústria precisa de fundamentos macroeconômicos estáveis, de confiança no futuro e de uma estratégia que amplie seus horizontes, hoje estreitos – e não de dirigentes sempre dispostos a bater palminhas a cada puxadinho estendido pelo governo.

CONFIRA:

anfavea

Acompanhe aqui os dados da produção nacional de veículos em 2014.

A volta da Cide?
Aumentam as pressões para a volta da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). A ideia é aproveitar a baixa do petróleo para sobretaxar os combustíveis cujos preços estão entre 30% e 40% mais altos no mercado interno do que no mercado externo. A volta da Cide pode resolver o problema do etanol, que ganha espaço da gasolina. Também ajuda na arrecadação. Mas aumenta os custos da indústria em relação aos da concorrência externa.

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