A Cide, outra vez

A Cide, outra vez

Já é dada como certa a volta da Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico, Cide, sobre os combustíveis

Celso Ming

14 de janeiro de 2015 | 21h00

Já é dada como certa a volta da Contribuição de Intervenção sobre o Domínio Econômico, Cide, sobre os combustíveis. É um tributo que serve para regular mercados, e não apenas o dos combustíveis. Mas os objetivos do governo são mais amplos do que simplesmente esse e são de complicada conciliação.

Criada em 2001, a Cide aplicada sobre os preços dos combustíveis cumpriu a função de abrir espaço para o etanol, na medida em que seus custos de produção dificultaram a competição com a gasolina. Em 2011, a Cide foi progressivamente reduzida e em 2012 acabou por ser zerada para ajudar a combater a inflação e compensar a falta de reajustes dos preços dos combustíveis. A partir daí, a capacidade de competição do etanol se estreitou substancialmente. Hoje há mais de 30 usinas de açúcar e álcool em processo de recuperação judicial.

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Em debate eleitoral pela TV na campanha presidencial de 2002, o então candidato Anthony Garotinho embaraçou o adversário Lula ao perguntar-lhe sobre a Cide. Lula não tinha ideia do era aquilo.
Como já foi apontado nesta Coluna outras vezes, o simples retorno da Cide poderia não ser suficiente para devolver viabilidade econômica ao setor do etanol, especialmente agora que os preços do petróleo caíram 55% em cinco meses.

Os preços internos dos combustíveis estão cerca de 40% mais altos do que os externos. Se for para dar realismo tarifário também para os combustíveis e, portanto, realinhar os preços internos aos níveis internacionais, a Cide teria de incidir em cerca de 50% dos preços só para cumprir a função de viabilizar o etanol.

Terça-feira, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que os preços dos combustíveis na refinaria (sem a Cide) são assunto interno da Petrobrás. É claro que não será bem assim, porque os preços finais dos combustíveis são essenciais para a definição de custos da economia e têm de integrar a equação que haverá de definir o tamanho da Cide.

O interesse imediato da Petrobrás parece ser o de tão cedo não reajustar (para baixo) os preços dos combustíveis, porque a prioridade é recuperar o seu caixa, castigado por 12 anos de secura. Mas não será o único fator em jogo. Preços altos demais dos combustíveis em relação aos vigentes no exterior tendem a encorajar as importações de gasolina e de diesel, o que também não convém à Petrobrás.
A Cide não é um tributo destinado a arrecadar. Seu objetivo é regular. Mas, na atual penúria do Tesouro, o governo pretende usá-la como instrumento, ainda que temporário, de arrecadação. Em 2011, trouxe para os cofres públicos o volume de R$ 9 bilhões (veja o gráfico).

Mas isso não é tudo. As três funções da Cide acima expostas (a de lançar um colete salva-vidas para o etanol, a de ajudar a recuperação do caixa da Petrobrás e a de contribuir para a arrecadação) têm, entre si, certo grau de incompatibilidade. É preciso levar em conta ainda outra limitação. Os preços internos dos combustíveis não podem ficar tão mais altos em relação aos externos a ponto de prejudicar o sistema produtivo já sobrecarregado de custos. Obrigar a indústria, já sem competitividade, a arcar com despesas mais altas com transporte e logística pode inviabilizar sua recuperação.

CONFIRA:

VAREJOjan2015

As vendas no varejo em novembro apontaram certa recuperação sobre o mês anterior. Mas não passam firmeza de melhora nos meses seguintes. É esperar para conferir.

Mal na foto
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que só a Argentina tem piores condições de competitividade do que o Brasil. O universo avaliado compreende 15 países, quase todos em desenvolvimento: Brasil, Argentina, Colômbia, México, Turquia, Índia, Polônia, Rússia, África do Sul, Chile, Espanha, China, Austrália, Coreia do Sul e Canadá.

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