A crise das matérias-primas

A crise das matérias-primas

Independentemente das escolhas equivocadas de política econômica nos 12 últimos anos, grande parte da crise do País tem a ver com o fim da alta das matérias-primas

Celso Ming

14 de abril de 2015 | 21h00

Os preços do petróleo permanecerão em torno dos US$ 51 por barril (de 259 litros) em 2015, mas deverão começar a se recuperar ao longo de 2016, para se estabilizar nos US$ 64, em 2017. Enquanto isso, os preços dos metais e das commodities agrícolas continuarão em queda neste ano e no próximo.

Esta é a conclusão de um estudo especial do Fundo Monetário Internacional (FMI) que integra o documento de abertura do Encontro de Primavera, a ser realizado em Washington nos três próximos dias.

As perspectivas do mercado mundial de matérias-primas são de enorme importância para o Brasil. Nas exportações, os produtos básicos pesam mais de 50%. Independentemente das escolhas equivocadas de política econômica nos 12 últimos anos, grande parte da crise do País tem a ver com o fim da alta das matérias-primas. O grande equívoco do governo foi não ter percebido essa mudança e ter continuado a farra de consumo quando boa parte das torneiras da renda já vinha fechando.

IndiceMatPrimasFMI

Por trás da forte esticada dos preços das matérias-primas, cujo auge foi 2011, estão as grandes compras da China. No ano 2000, por exemplo, a China consumia 13% dos metais produzidos no mundo. Hoje, passou a 43%. A disparada dos preços estimulou grande aumento da produção de petróleo, de metais e de produtos agrícolas. Agora, a superprodução, a baixa atividade econômica das economias maduras e a desaceleração do crescimento da China se encarregaram de compor a nova paisagem do setor.

Os investimentos em petróleo já estão caindo em consequência da baixa de preços. Com o aumento gradual da demanda, prevê o FMI, a alta virá aos poucos. Essas previsões estão sendo confirmadas pelas cotações mais altas no mercado futuro: preços médios de US$ 58,10 por barril em 2015; US$ 65,70 em 2016 e US$ 69,20 em 2017.

Do ponto de vista do Brasil – e isso não está no estudo do FMI -, o que dá para dizer é que, acreditando-se nos custos de produção ao redor dos US$ 50 por barril, os investimentos no pré-sal continuarão viáveis, embora com níveis de retorno bem mais baixos. Mas a Petrobrás deverá tratar de reduzir custos e, para isso, não pode mais ser obrigada a sustentar compras de equipamentos a preços substancialmente mais altos no mercado interno para cumprir rígidos critérios de conteúdo nacional, quando os equipamentos do setor estão em baixa.

Quanto aos metais, a perspectiva é ainda de queda dos preços médios, de 17% ao longo de 2015. E continuação da queda em 2016, embora com menos intensidade. O caso do minério de ferro, de grande importância para as exportações brasileiras e para os negócios da Vale do Rio Doce, é mais pessimista.

Os preços dos alimentos mergulharam 23% em comparação à situação de pico de 2011. Seguirão em queda, de 15% em 2015 e de 3% em 2016. Produtos agrícolas que também servem de matérias-primas para biocombustíveis (como cana-de-açúcar e soja) sofrerão mais, porque a queda dos preços do petróleo reduzirá a demanda desses produtos.

Ou seja, os tempos são de vacas magras e a política econômica deve refletir a nova situação.

CONFIRA

VAREJOfev2015N

Aí está a evolução das vendas ao varejo em 12 meses até fevereiro.

Retração
Os números do comércio varejista são ruins, mas nada que já não fosse esperado. A inflação vai comendo poder aquisitivo, o risco de desemprego cresceu, o consumidor está bem mais afastado, regulando suas compras.

Queda amplificada
Quando incluem veículos e materiais de construção (varejo ampliado), a queda é ainda maior: 10,3% sobre janeiro, 7,5% na acumulada no ano e 3,8% em 12 meses.

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