A defesa do ajuste

A defesa do ajuste

Políticos e sindicalistas do PT querem festa e farta distribuição de benesses, pouco se importando com as condições das contas públicas ao final do processo.

Celso Ming

26 Fevereiro 2015 | 21h00

O ex-presidente Lula parece ter entendido melhor do que a presidente Dilma a importância da política de ajuste da economia e a adoção de um programa de sacrifícios hoje para obtenção de melhores condições mais à frente.

Quarta-feira, em jantar com os senadores do PT, Lula criticou a falta de empenho dos políticos do partido na defesa da nova política.

“Este ajuste precisa ter um objetivo. Ele não está sendo feito porque achamos que é bom, mas, sim, para apontar um horizonte. (…) Todos estamos falhando ao não explicar que não se trata de um fim em si mesmo nem de uma coisa isolada”, disse Lula, conforme relato do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT-PE), à Agência Estado.

Lula e Dilma. Por que sacrifício? Crédito: André Dusek

Lula e Dilma. Por que sacrifício? Crédito: André Dusek/Estadão

Lula acrescentou que “é preciso combater sem trégua a inflação, o mais rapidamente possível, para evitar que tudo desande”. E completou: “Qual o País que queremos entregar ao sucessor de Dilma?”.

Além de temer os efeitos do desandamento, Lula soube compreender a importância de uma política dedicada ao reforço dos fundamentos da economia. Em 2002, ainda como candidato ao primeiro mandato, assinou a Carta ao Povo Brasileiro, em que se comprometeu a puxar o superávit fiscal e os juros para os níveis que viessem a ser necessários para colocar a casa em ordem e vencer a inflação. E, depois, sustentou essa política.

Após quatro anos de desorganização da economia e pressionada pelos resultados, a presidente bem que virou na direção correta. Decidiu que sua política econômica passasse a ser marcada pela austeridade na administração das contas públicas e pelo combate à inflação. Para isso, nomeou ministro da Fazenda o economista Joaquim Levy. Mas parou aí. Dilma está sendo incapaz de agir com determinação na defesa do caminho escolhido. Segue por aí, meio envergonhada da escolha que fez, com breque de mão puxado, passando a impressão de constrangimentos sucessivos. Mostra-se desinteressada em combater os ferozes opositores dentro do seu governo, no Congresso, na sociedade e dentro do seu partido.

A percepção que ganha campo é a de que a qualquer momento, a presidente Dilma pode tirar o chão debaixo dos pés de sua equipe econômica e mandar a austeridade para os ares. Enfim, o governo não passa firmeza pelas escolhas que fez.

O ex-presidente Lula vem dizendo que a única maneira de entregar um País arrumado para o sucessor de Dilma – que, presumivelmente para ele, haverá de ser ele próprio ou outro candidato do PT – é executar com sucesso uma política de austeridade fiscal e de implacável combate à inflação.

O problema é que os políticos e os sindicalistas do PT pensam diferentemente. Querem festa e farta distribuição de benesses, pouco se importando com as condições das contas públicas ao final do processo. Ou, então, como a renda vai encolhendo, acirram o conflito distributivo e tentam garantir na marra o que não conseguem por arbitragem do próprio governo.

As motivações pelas quais se quer uma economia em ordem variam de grupo para grupo. Uns querem emprego; outros, melhores negócios; outros, uma vida melhor para os filhos; e outros, ainda, como Lula, as melhores condições eleitorais. Mas, para isso, é preciso um governo mais determinado, não importando suas motivações últimas.

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