A Espanha geme

A Espanha geme

Celso Ming

23 de julho de 2012 | 20h00

Não dá para tirar de foco a crise do euro. Se, por alguns dias, ela se esconde por trás de uma nova emergência, logo em seguida acaba por reaparecer.

Esta segunda-feira foi desses dias em que as turbulências voltaram. Agora, com o agravamento das condições da Espanha. Sexta-feira, Valência, uma de suas 17 comunidades autônomas, avisou que pediria socorro para enfrentar suas despesas. E ao menos outras cinco comunidades enfrentam graves dificuldades para se manter em suas pernas.

A dívida pública da Espanha é grande, mas bem mais baixa do que a de outros países do euro. O que a fez quase insustentável foi seu perfil, concentrado no curto prazo.

O problema original não é sequer fiscal (excesso de despesas). É o enorme endividamento que, a rigor, é privado. A circulação do euro, em 2002, criou uma pechincha em créditos baratos. Baixou juros a níveis próximos aos da Alemanha. E bancos se puseram a financiar negócios imobiliários com recursos de bancos maiores, sobretudo os alemães.

O boom imobiliário criou empregos da noite para o dia, como cogumelos. Salários saltaram e a indústria perdeu competitividade. Quando a bolha imobiliária estourou, em 2008, os espanhóis estavam superendividados e desempregados (quase 25% da população ativa sem trabalho). Os preços dos imóveis desabaram, as hipotecas perderam qualidade e os bancos sofreram enorme erosão patrimonial.

O Estado quebrou porque teve de socorrer bancos e pagar seguro-desemprego para um quarto da população ativa numa paisagem desolada, de recessão e de forte quebra de arrecadação.

Nesta segunda-feira, os títulos de 10 anos da Espanha só encontraram interessados se pagassem rendimento (yield) de 7,5% ao ano. A esse nível, uma dívida aumenta 100% em pouco mais de 9 anos, mesmo sem aumento do rombo orçamentário, somente com a incorporação dos juros ao principal.

A administração do chefe de governo, Mariano Rajoy, bem que tenta derrubar despesas públicas, para dar sustentabilidade à dívida. Hoje, no entanto, toda a economia enfrenta problema ainda mais urgente: a deterioração das finanças dos bancos. Até muito recentemente, os títulos de dívida de países soberanos eram considerados 100% seguros. Mas a quebra da Grécia mostrou que, mesmo na área civilizada do euro, dívidas soberanas estão sujeitas a calote. Isso passou a exigir mais capital para o tamanho dos ativos carregados pelos bancos.

Na sexta-feira, autoridades do euro aprovaram empréstimo de 100 bilhões de euros, em condições especiais, para reforçar o patrimônio dos bancos espanhóis. Mas o novo socorro não chegou a tranquilizar os mercados porque, mesmo em condições melhores, a dívida da Espanha aumentou nesse tanto. E agora se vê que as comunidades autônomas (Estados) não conseguem juntar recursos para enfrentar as despesas. Se o governo central providenciar o socorro solicitado, terá de elevar ainda mais a dívida.

Enfim, fibra por fibra, a corda vai rebentando. A Espanha está longe de mostrar como equacionará suas finanças. O problema é que a Espanha não é ave isolada. É Espanha, é Grécia, é Portugal, é Irlanda… e é também Itália.

CONFIRA

Esta é a evolução do rendimento (yield) ao ano pago pelo título de dívida de 10 anos da Espanha.

Fraqueza puxa fraqueza. Em entrevista, nesta segunda-feira, ao Estado, o professor Affonso Celso Pastore disse que uma das razões para esperar crescimento de 4% em 2013 é puro efeito estatístico: o avanço do PIB deste ano será baixo (inferior a 2%). Comparando com ele, o PIB no próximo ano seria mais alto. Infelizmente, aí há mais boa vontade do que argumento. O resultado de 2011 também foi baixo (2,7%), mas o deste ano já é o que se sabe. E na Europa também se vê fraqueza depois de fraqueza.