À esquerda, com solidez

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O sucesso de Evo Morales nas urnas traz um recado para a presidente Dilma: uma política que preserva a boa administração macroeconômica é a primeira condição necessária (ainda que nem sempre suficiente) para um vitorioso desempenho eleitoral

Celso Ming

13 de outubro de 2014 | 21h00

O presidente da Bolívia, Evo Morales, foi reeleito domingo com um cabedal de cerca de 60% dos votos. Começa em janeiro seu terceiro mandato. Seu sucesso traz um recado para a presidente Dilma: uma política que preserva a boa administração macroeconômica é a primeira condição necessária (ainda que nem sempre suficiente) para um vitorioso desempenho eleitoral.

Em todos esses anos, Morales sustentou um discurso nacionalista e antiliberal, mas sua administração foi pautada pela observância do que tem de ser uma economia equilibrada.

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Arce. A base do avanço social (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Conduziu uma vigorosa política de inclusão ao mercado de consumo das populações de mais baixa renda, cujo principal resultado foi a redução dos níveis de extrema pobreza de 38% para 18%. Investiu no transporte público e canalizou gás natural para as casas populares. Mas não abriu mão da solidez da economia.

O homem da área é o ministro Luis Alberto Arce, de orientação ortodoxa, formado pela Warwick University, da Inglaterra. Ele vem conduzindo as finanças públicas sob rigoroso controle e as contas externas com fortes superávits. Sob Arce, o crescimento econômico da Bolívia tem sido vigoroso e constante, a inflação segue relativamente contida e o desemprego, em níveis baixos. (Veja tabela no Confira)

Autossuficiente e descuidada, a presidente Dilma fez o oposto. Aparentemente para se diferenciar do seu predecessor, colocou em marcha uma política supostamente de inspiração keynesiana, mas de natureza experimentalista, que atropelou noções elementares de Economia Política.

A intenção foi puxar pelo desenvolvimento econômico baseado no aumento do consumo. Mas provocou enormes desequilíbrios porque não garantiu a solidez das contas públicas e deixou deteriorar as contas externas. O resultado foram quatro avanços miseráveis do PIB, quatro anos de inflação próxima do teto da meta, mergulho do investimento e perigosa desidratação da indústria.

Em outras palavras, o governo Dilma perdeu a oportunidade de montar uma política econômica “diferente de tudo o que está aí”, porque ignorou o básico, como se o básico fosse receita neoliberal, amarrada sabe-se lá a que tipo de práticas burguesas de administração pública.

Mal comparando, Evo Morales fez uma política parecida com a da primeira metade do mandato do presidente Lula. É verdade que foi beneficiado pela boa temporada de alta de preços das matérias-primas (minérios e gás natural) e pela fartura de dólares no mercado internacional. As exportações de gás natural para o Brasil e a Argentina alcançaram US$ 6,11 bilhões, seis vezes mais altas do que as obtidas em 2005, antes da chegada de Morales ao poder. No entanto, ao contrário dos governos do PT, que desperdiçaram oportunidades de investir e semear desenvolvimento futuro, Morales e seu ministro Arce tiraram proveito dos tempos de bonança.

Uma administração com forte ênfase em distribuição de renda e políticas sociais no Brasil poderia ser uma excelente opção de qualquer governo, desde que respeitasse os fundamentos da economia e fosse transparente na concessão de subsídios – algo que o governo boliviano soube fazer. Morales deu um passeio nas urnas. Mas o fator responsável por esse sucesso é a política conduzida por Luis Alberto Arce.

Brasil X Bolívia - tabela

A tabela compara os resultados da economia de Brasil e Bolívia.

Revolução Energética
A propósito da coluna de domingo, que tratou do aumento da produtividade da indústria dos Estados Unidos proporcionado pela revolução do xisto, o leitor Luis Frisoni Jr. adverte para outro risco que o Brasil corre: o de que o tombo dos preços do petróleo possa inviabilizar a exploração do pré-sal. Isso poderá acontecer, diz ele, se os preços caírem para algo entre os US$ 50 e US$ 60 por barril. Apenas para lembrar, a Petrobrás calcula em US$ 40 por barril de petróleo o custo médio do pré-sal.

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