A gasolina sob pressão

A gasolina sob pressão

Celso Ming

13 de agosto de 2013 | 20h00

É dos amigos, e não da oposição, que o governo Dilma recebe o maior tiroteio contra a atual política de subsídios aos combustíveis, principalmente à gasolina.

Segunda-feira, foi o diretor financeiro da Petrobrás, Almir Barbassa, que advertiu o governo de que o atual nível de preços ao consumidor é insustentável. Se não houver correção, argumentou, deteriora-se tanto a capacidade de investimento quanto a capacidade de endividamento da Petrobrás, a ponto de comprometer irremediavelmente seu plano de negócios.


Barbassa. Preços insustentáveis (FOTO: Fábio Motta/Estadão)

Pelos padrões internacionais, hoje o consumidor paga entre 20% e 24% menos do que deveria, tanto pela gasolina quanto pelo diesel. E esses números tendem a subir em consequência do avanço das cotações do dólar no câmbio interno, que veio para ficar (veja o Confira).

Nesta terça-feira, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, voltou à carga nas suas críticas de que os subsídios à gasolina praticados pelo governo Dilma concorrem para emperrar o trânsito nas grandes cidades e para tirar eficiência no transporte coletivo. Ele defende o aumento dos preços da gasolina (mas não do diesel) com uma taxação por meio da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), com duplo objetivo: o de desestimular o uso do automóvel nas grandes cidades e o de pagar parte da tarifa do transporte urbano.

Tanto para a Petrobrás como para o prefeito Fernando Haddad, o governo vem negando esses reajustes, sob o argumento de que seriam inflacionários. O estudo do professor Samuel Pessoa, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgado nesta terça-feira, mostra que a cobrança de um tributo adicional de R$ 0,50 sobre o preço ao consumidor do litro de gasolina reduziria em R$ 1,20 a tarifa da condução, fator que concorreria para diminuir a inflação, e não para aumentá-la.

O problema é que a aceitação da proposta do prefeito Fernando Haddad não resolveria o problema da Petrobrás. Para eliminar ambas as distorções, só os preços da gasolina teriam de ser aumentados em cerca de 40%.

A questão principal é a inversão de prioridades do governo Dilma que até agora ignorou o transporte coletivo e tudo fez para estimular o transporte individual.

Os subsídios à gasolina e o achatamento subsequente dos preços do etanol foram apenas um dos fatores que concorreram para a distorção. O automóvel foi até agora o grande xodó do governo Dilma, o que se explica não só pelo lobby das montadoras, mas, também, pela força dos sindicatos.

Durante meses a fio, o automóvel foi beneficiado pela redução de impostos, sob o pretexto de que seria preciso garantir o aumento de produção e o emprego do setor. Com encorajamento do governo, somente nos últimos dois anos e meio, nada menos que R$ 52 bilhões do sistema foram direcionados para o financiamento de veículos apenas para pessoas físicas.

As manifestações de junho parecem ter abalado essas políticas. Até agora, a tendência foi de deixar a solução para depois das eleições. Se for isso, as distorções aumentarão, ficará ainda mais caro corrigi-las e é preciso verificar, ainda, se a Petrobrás aguenta.

CONFIRA:

Aí está a evolução das cotações do dólar no câmbio interno em 2013.

Quando setembro vier. É para o mês que vem que se esperam as primeiras decisões do Fed (o banco central dos Estados Unidos) para reverter sua política monetária expansionista (compra de títulos com emissão de moeda). Apenas a piora do mercado de trabalho nos Estados Unidos parece capaz de adiar o processo. O desemprego está a 7,4%. Os analistas esperam que a queda para 7% será o gatilho que dará início à operação. Será inevitável certo escasseamento de dólares.

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