A herança

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A herança

Este governo deixará uma herança maldita para o próximo, que pode ser ele mesmo. Disso discorda apenas o atual governo.

Celso Ming

25 de setembro de 2014 | 21h00

Este governo deixará uma herança maldita para o próximo, que pode ser ele mesmo. Disso discorda apenas o atual governo.

É um legado de encrencas econômicas, grandes e pequenas, algumas de solução complicada que tendem a se complicar ainda mais.

Para enfrentá-lo são necessárias duas posturas preliminares. A primeira é reconhecer a existência das distorções. A seguinte é assumir responsabilidades. São exigências que se sobrepõem: quando não há esse reconhecimento também não se reconhece a responsabilidade sobre elas.

O sintoma de que a economia passa por problemas de saúde é do conhecimento geral. Se fosse uma ficha médica, lá estaria anotado o crescimento mísero do PIB que não passará da média de 1,63% nos últimos quatro anos (inclusive este), acompanhado por uma inflação excessiva, investimento em queda livre, desarranjo crescente nas contas públicas, rombo nas contas externas e uma indústria enfraquecida.

Dilma Roussef

Dilma. Pra quem fica? (FOTO:RICHARD DREW/AP)

Diante desse quadro, a atitude básica do governo Dilma é a de que não há o que fazer, porque o centro da crise está fora do alcance das políticas públicas, na medida em que foi gerado pelos problemas globais. No entanto, esse balanço não é o resultado da crise externa, como tanto se ouve do ministro da Fazenda. É consequência das escolhas de política econômica que não levaram em conta a conjuntura de crise, uma vez que havia o entendimento de que a economia brasileira vinha relativamente imunizada contra os efeitos da retração global: “Chega aqui como uma marolinha”– havia se gabado o presidente Lula.

Os estímulos ao consumo foram excessivos, os investimentos pararam e a competitividade do setor produtivo caiu. Além disso, o governo deixou que as despesas públicas disparassem, que a inflação passasse do ponto e depois fosse combatida com instrumentos inadequados como o represamento de tarifas e do câmbio. O resultado é a desarrumação dos fundamentos da economia, agravada pela crise de confiança.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pareceu apontar para uma virada ao avisar que uma derrubada dos juros, essencial para a redução dos custos das empresas, passará por um aperto da política fiscal (administração das contas públicas). Mas ele não estará mais à frente do Ministério no próximo governo. E, até agora, da presidente Dilma só se ouviram críticas aos que pedem mais austeridade.

De todo modo, o novo governo não enfrentará só a herança de uma economia desarrumada, num momento de crise global ainda não superada. Terá pela frente uma conjuntura com duas novas adversidades impostas pela economia internacional e outras três impostas pela dinâmica interna.

Da economia global virá uma temporada de baixa prolongada dos preços das commodities, que pesam cerca de 50% nas exportações; e relativa escassez de moeda estrangeira, na medida em que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) passará a retirar dólares da economia.

Além do raquitismo dos investimentos, a economia interna terá de lidar com mais duas limitações: incertezas no suprimento de energia elétrica e escassez relativa de mão de obra, especialmente a qualificada. São fatores escassos mesmo com esse PIB mirrado. E tanto mais escassos ficarão quanto maior vier a ser o avanço do PIB.

CONFIRA:

DesempregoIBGEAgo2014

 

Aí está a evolução, nos últimos 12 meses, do índice de desocupação medido pelo IBGE em seis regiões metropolitanas do Brasil. Em agosto, o índice ficou em 5,0%.

Depois da greve
Após quatro meses sem divulgar os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) por causa da greve dos servidores, saíram nesta quinta-feira, além do resultado de agosto, também os de maio, junho e julho. Nesta ordem, os índices de desocupação foram de 4,9%, 4,8% e 4,9%. A situação continua sendo de pleno-emprego, como está no texto ao lado.

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