A hora do investimento

A hora do investimento

Celso Ming

28 de setembro de 2012 | 20h00

O mau funcionamento das engrenagens vai mostrando que a estratégia da política econômica do governo Dilma, de dar força ao consumo, está esgotada e que o empuxo que vem do investimento continua insuficiente.

O pressuposto desta estratégia é o de que, para garantir o crescimento econômico, basta estimular a demanda. Em havendo pujante mercado interno de massa, a oferta viria atrás, como o mel no tempo das floradas.

As coisas não estão se comportando assim. Mesmo com incentivos ao crédito, corte dos juros, desvalorização do real (alta do dólar), reduções de impostos, desonerações da folha de pagamentos, forte aumento de salários e da renda, robusta expansão do consumo e emprego recorde, a indústria está se desidratando. Nas projeções do Banco Central, seu crescimento neste ano será negativo em 0,1%. Mesmo antes do início do último trimestre, dirigentes do setor repetem que este é um ano “para esquecer”.

O último Informe Conjuntural da Confederação Nacional da Indústria (CNI) faz duras advertências ao governo. Avisa que “há limites ao modelo de crescimento via consumo e à capacidade de políticas anticíclicas reativarem, isoladamente, o dinamismo da economia”.

A indústria não dá conta da oferta tanto por falta de investimentos quanto por seguir atolada em custos. E, depois de ultrapassar mais da metade do tamanho do PIB, o estoque de crédito esbarra em obstáculos intransponíveis. Nada menos que 54% dos detentores de cartões de crédito estão enroscados no crédito rotativo, onde os juros continuam escorchantes – como mostrou, quinta-feira, matéria de Márcia de Chiara, no Estadão. Embora nos financiamentos de veículos tenha cedido um pouco, aumenta o calote no crédito às pessoas físicas.

O raquitismo dos investimentos foi, também, uma das principais preocupações manifestadas pelo Banco Central em seu último Relatório de Inflação. O governo federal parece ter entendido que a hora exige mais força ao investimento do setor privado.

Mas, nesse particular, segue de breque de mão puxado. Anuncia novas concessões de aeroportos, mas, em seguida, quer meter no negócio estatais que não têm recursos. Avisa que reabrirá licitações na área do petróleo, mas impõe condições desnecessárias, como a aprovação das regras de distribuição dos royalties até mesmo para o pós-sal. Na área de energia elétrica, não mostra clareza no marco regulatório, sempre sujeito a bloqueios judiciários. O setor do etanol está prostrado porque o governo achatou os preços da gasolina. A Petrobrás está atrasada no seu programa de investimentos por um punhado de razões, mas também porque o governo faz política de preços à custa do seu caixa. O PAC, que deveria empurrar todo o setor produtivo, faz água por atrasos e deficiências gerenciais. E, em praticamente todos os setores, o governo não consegue agilidade e decisão dos organismos encarregados de liberar licenças ambientais.

O próximo risco de fiasco a ser enfrentado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, é o de que, também no último trimestre deste ano, a economia não alcançará a tal velocidade de cruzeiro de 4,0% ao ano. Para meados de 2013, o Banco Central já não vê avanço superior a 3,3%. E pode vir a ser obrigado a rebaixar esse número, como tem acontecido nos últimos dois anos.

Se quer crescer a 4% ao ano, a economia tem de garantir investimentos de 22% do PIB. Por enquanto, não passa dos 18%, proporcionais ao pibinho que está aí.

CONFIRA

Desta vez, o governo federal exigiu que seus bancos oficiais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) acirrassem a concorrência com os bancos privados. O objetivo é enquadrá-los na redução dos juros, no financiamento rotativo automático dos cartões e na diminuição das tarifas cobradas sobre os serviços. Esse jogo vai provocando estrago no valor de mercado dos bancos. Apenas nos últimos quatro dias úteis, a baixa das cotações na Bolsa é a que está mostrada no gráfico.