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A inflação ataca

Celso Ming

22 de dezembro de 2010 | 18h45

O Relatório de Inflação de dezembro veio bem mais sombrio do que a ata do Copom, divulgada apenas seis dias antes. (Veja o Entenda.) A mudança de tom foi tão grande que ficou a dúvida: a realidade piorou tanto em menos de uma semana ou é o Banco Central que não está sabendo se comunicar?

Desta vez, o ambiente para os preços se deteriorou rapidamente, adverte o Banco Central, preparando assim os agentes econômicos para uma nova rodada de alta dos juros básicos (Selic), que desde julho estão a 10,75% ao ano. O diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo, foi ainda mais contundente. Falou em “aceleração gigantesca nas expectativas de inflação a partir de setembro”.

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O setor produtivo vai a reboque do consumo – diz o Relatório. Cresce ao ritmo de 7,3% (é quanto vai se expandir o PIB), enquanto o consumo avança a 10%. Isso explica o quadro de inflação de demanda, aquele em que os preços sobem em consequência de um descompasso entre oferta e procura. Ou seja, nem o aumento das importações, de 44% nesses 11 meses do ano, pagas com um dólar barato, a R$ 1,70, estão dando conta da febre de compras dos consumidores.

Pela primeira vez, em muitos anos, ficou dito no documento que os salários jogam contra a estabilidade na economia. Os reajustes que as empresas estão sendo forçadas a conceder pela escassez de mão de obra “são incompatíveis com o aumento da competitividade do setor produtivo”. Dito de outra forma, o excessivo aquecimento do mercado de trabalho vai exigir despejo de água fria. Para esse resfriamento, não será suficiente apenas a desaceleração a ser provocada pela contenção das despesas públicas. Será preciso atuar também por meio da elevação dos juros.

E há as advertências sobre a deterioração das condições externas. Após quase três anos de crise global, a inflação passou a ser o principal problema a ser enfrentado pelos bancos centrais dos países ricos, especialmente da Europa. E o maior foco de alta virá da escalada dos preços das commodities, especialmente dos alimentos, o que traz o lado bom para o Brasil, que é o aumento das exportações, mas contribui para puxar os preços por aqui.

Outro grande incubador de inflação interna está na área dos serviços, um segmento do mercado que tem pouca ou quase nenhuma exposição à concorrência externa. É outro sinal de que a demanda avança na frente da oferta.

E qual é o recado? O Banco Central avisa que falta medir o impacto das restrições do crédito sobre os preços. Não disse com todas as letras que os juros aumentarão dia 19 de janeiro, quando se reunirá o Copom. Mas deixou entrever que ficou mais provável que isso aconteça.

A alta dos juros é o primeiro elemento que contrariaria a intenção do futuro governo Dilma de baixar o custo do dinheiro a fim de atrair mais investimento do exterior para as obras do PAC sem risco de derrubar demais a cotação do dólar.

Enfim, a força da inflação provavelmente exigirá uma esticada ainda maior dos juros do que a programada. Falta saber qual será a disposição do governo federal de apertar ainda mais os cintos de maneira a não deixar a maior parte do serviço de saneamento para o Banco Central, como invariavelmente tem acontecido.

ENTENDA

O que é o que é. O Relatório de Inflação é um documento trimestral, que nesta quarta-feira veio com 137 páginas, no qual o Banco Central avalia todos os fatores que direta ou indiretamente influenciam a inflação e os juros.

Barco a remo. O Relatório e a ata do Copom são os principais instrumentos de comunicação por meio dos quais a instituição realiza sua política de condução das expectativas junto ao mercado financeiro e aos marcadores de preços. Mostram o que o Banco Central está vendo e como pretende combater a inflação, mais ou menos como o patrão do barco a remo canta o ritmo das remadas.

Questão de credibilidade. O bom gerenciamento das expectativas é essencial para a obtenção de resultados. Quanto maior a credibilidade desfrutada pelo Banco Central, mais os agentes econômicos tenderão a remarcar os preços nos limites e no ritmo por ele manifestados. Por isso, pressupõe capacidade de discernimento e clareza de expressão.

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