A mazela é nossa

A mazela é nossa

Celso Ming

24 de maio de 2014 | 17h00

Quando disputou e arrancou o privilégio de sediar a Copa do Mundo, o governo Lula pretendeu aproveitar o evento para uma super exibição do Brasil para o mundo, em capacidade administrativa e potência econômica.

Enormes focos de luz estão dirigidos agora para cá e para tudo o que há de errado. A curiosidade do exterior não se limita à degustação de coisas daqui, como caipirinha, suco de maracujá e pão de queijo. Extravasa para as mazelas nossas. O Brasil está frustrando as expectativas criadas quando se tornou o B do Brics. Algumas matérias, as do jornal inglês Financial Times, de 4/5, e da revista alemã Der Spiegel, de 11/5, foram demolidoras.

Além de advertir os visitantes para os riscos que correm por aqui com segurança pessoal e alimentação deteriorada, os grandes jornais e revistas, a TV e a internet não param de desnudar as mazelas do País e sua desorganização interna. A condução dos preparativos para a Copa foi uma sucessão de encrencas: falta de planejamento, estouro injustificável de custos, desperdícios, atrasos enormes e evidências sobre a baixa qualidade de algumas obras.

Neste sábado, o correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade, relatou que a Copa baterá todos os recordes de lucro da história do futebol (veja tabela). Será um sucesso de bilheteria, de arrecadação de direitos para a Fifa e de lucros para as patrocinadoras. Mas, na percepção do brasileiro comum, pouco sobrará para ele além de eventuais alegrias com as vitórias de sua seleção.

As manifestações que pipocam em todas as grandes cidades, inclusive entre movimentos protegidos pelo governo, como o MST, levantam dúvidas sobre o acerto da decisão que deu prioridade às obras de engenharia dos estádios, em detrimento dos investimentos em ensino, em saúde e em transporte público. Esperava-se que este fosse um dos bons resultados indiretos. Mas nessa área as coisas estão piorando. O próprio Lula considera “babaquice” a construção de linhas de metrô que atendam a estádios de futebol, sem levar em conta as necessidades das populações das vizinhanças. Ele deve discordar da presidente Dilma que, na sexta-feira, afirmou que a construção e a ampliação dos aeroportos não vieram para benefício dos torcedores estrangeiros, mas para atender a 112 milhões de passageiros no Brasil.

Não faz sentido argumentar que as imposições da Fifa são descabidas. Está tudo no contrato. São condições já previstas por quem se apresentou como candidato à sede da Copa.

É provável que, a partir do momento em que a seleção canarinho entrar em campo, as manifestações de indignação refluam e sejam deixadas para depois. Mas não dá para esconder que as novas classes médias se sentem frustradas com a baixa qualidade dos serviços públicos e com o derretimento da capacidade de consumo provocado pela inflação de mais de 6% ao ano. Mas isso exige conserto dos fundamentos da economia que não aparecem em nenhuma das prioridades do governo Dilma.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução do Investimento Estrangeiro Direto (IED) em doze meses, nos últimos dois anos.

Não é mais o mesmo

A entrada de capitais de longo prazo (IED) já não cobre com folga o déficit das outras contas externas, como diziam as autoridades do Banco Central há alguns anos. Na última sexta-feira, o diretor do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, preferiu dizer que o IED supre até 80% do rombo. Ou seja, o equilíbrio das contas depende cada vez mais da entrada de capitais de curto prazo.

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