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A moeda estável

Celso Ming

15 de fevereiro de 2011 | 18h24

Uma das obsessões do presidente da França, Nicolas Sarkozy, que ocupa a presidência do Grupo dos 20 (G-20) maiores países do mundo, é a reforma do Sistema Monetário Internacional.

Como tanta gente por aí, Sarkozy não está nem um pouco satisfeito com a atual situação em que o dólar ocupa o posto de quase única moeda de reserva, embora este seja um valor altamente volátil. E propõe mudanças a partir da reunião entre ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G-20, que se realizará sexta e sábado.

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Lagarde. Sem volta ao câmbio fixo (FOTO: Benoit Tessier/REUTERS)

O dólar é uma moeda manipulada. É engraçado que os americanos vêm tentando acusar a China de manipular o yuan e, no entanto, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) já emitiu US$ 1,3 trilhão e vai emitir mais US$ 600 bilhões até junho para recomprar títulos do Tesouro americano, que, por sua vez, foram lançados para cobrir despesas correntes do governo. Se isso não é manipulação, então o que é? Mas não é só o dólar e o yuan. O próprio euro está sendo manipulado. O Banco Central Europeu (BCE) está emitindo euros para recomprar títulos soberanos micados de países quase insolventes, como Grécia, Irlanda e Portugal.

Portanto, há razões para desejar pelo menos uma moeda mais confiável. O problema é que as opções disponíveis ou a serem criadas para a solução do problema não dão um mínimo de estabilidade nem substituem adequadamente o dólar.

O padrão-ouro acabou em 1971, quando o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro. Mas há muito que o ouro já não serve como padrão nem para cumprir outras funções monetárias porque é ativo sujeito a trancos de oferta e de procura, entesouramento e desentesouramento e por apresentar volume relativamente baixo. Para o maior economista do século 20, John Maynard Keynes, dava para enfiar todo o ouro do mundo num transatlântico e afundá-lo numa dessas fossas abissais para que ninguém mais trouxesse de volta a “relíquia bárbara”.

A ministra da Economia da França, Christine Lagarde, avisa que “temos de encontrar uma saída que não seja a volta do câmbio fixo”. Esta também não é uma solução porque obrigaria os bancos centrais a comprar e a vender enormes quantidades de moeda estrangeira para manter a paridade que seria combinada.

A proposta da França também não é satisfatória. É a eleição dos Direitos Especiais de Saque (DES, a moeda do Fundo Monetário Internacional) como padrão global. A proposta apresenta problemas. O mais importante deles é que seu valor corresponderia ao de uma cesta de moedas, entre as quais estaria o yuan da China, que nem conversível é. Mas, se todas as moedas que constituiriam o DES dançam freneticamente umas em relação às outras, como esperar estabilidade no DES composto por elas?

Outro problema é o de que, mesmo se fosse para fechar os olhos para essa grande limitação, o DES serviria apenas para desempenhar uma das três funções da moeda. Serviria como medida de valor. Não serviria nem como meio de pagamento (dinheiro para adquirir bens e serviços) nem como reserva de valor (para guardar riqueza), pela simples razão de que o Fundo teria capacidade muito limitada para emitir esses ativos.

É por razões assim que a probabilidade de obter uma reforma do Sistema Monetário Internacional parece muito baixa. E a plateia do dólar comemora.

CONFIRA

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O gráfico acima, elaborado pelo Banco Mundial, mostra como estão subindo os preços dos alimentos.

Empobrecimento. O relatório que o Banco Mundial divulgou nesta terça-feira deve aumentar a temperatura da reunião do G-20 marcada para esta sexta-feira. Lá está dito que a disparada dos preços dos alimentos a partir de junho de 2010 atirou 44 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento para abaixo da linha de pobreza. Entre outubro de 2010 e janeiro de 2011 (inclusive) os preços saltaram 15% e em 12 meses, 29%.

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