A pressão do consumo

Celso Ming

19 de abril de 2010 | 19h34

Por toda a economia, aumentam os sinais de que o crescimento do consumo, “em ritmo chinês”, de 10% ao ano, é excessivo e insustentável.

O único que finge não ver o que acontece é o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Às vezes, parece aceitar o diagnóstico de que vem vindo aí um surto de inflação e para atacá-la ameaça reduzir tarifas alfandegárias. Outras vezes, sugere que o superconsumo ainda é consequência residual da política anticíclica do governo, já removida na medida em que foi eliminada a isenção temporária de IPI para automóveis e aparelhos domésticos. Nessas condições, conclui o ministro, é só esperar que o aumento do consumo reflua naturalmente, sem necessidade de contra-ataques de política monetária (aumento dos juros).

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MANTEGA – Ele finge não ver (Foto: J. F. Diório / AE – 2/3/2009)

Aí há dois equívocos e uma omissão. O primeiro equívoco consiste em tentar rebater a alta dos preços internos com redução de tarifas aduaneiras. O principal foco de inflação está no setor de serviços contra o qual uma redução de tarifas não resolve.

O segundo está em ensaiar uma explicação descabida. As pressões altistas não estão localizadas no setor de veículos e no de aparelhos domésticos, os mais beneficiados com a redução de impostos, como sugere o ministro. Além disso, a julgar pelos depoimentos obtidos pela imprensa no setor varejista, a demanda de bens de consumo durável continua forte, mesmo depois da normalização da cobrança do IPI. Isso mostra renda em expansão e disposição crescente por parte do consumidor de se endividar.

A omissão antes mencionada tem a ver com a falta de coragem do ministro em reconhecer que o forte consumo e as pressões sobre os preços que daí advêm se devem à excessiva expansão das despesas públicas (da ordem de 17% neste ano), comandadas pelo governo Lula em seu empenho de amolecer o eleitor. É o governo gastando demais que cria renda artificial e aumento do consumo.

O ministro Mantega tem, sim, razão quando deixa subentendida sua contrariedade pelo propósito já manifestado pelo Banco Central de resolver com aperto monetário (alta dos juros) um problema produzido por causas não monetárias. Falta reconhecer que o problema é fundamentalmente fiscal e que, por isso, mais adequado é enfrentá-lo com remédios fiscais, ou seja, com a volta da austeridade na condução do orçamento federal. Isto é, a solução correta está no âmbito da jurisdição do próprio ministro, e não do Banco Central.

Na medida em que a Fazenda se omite e nem sequer se dispõe a fazer o diagnóstico correto, sobram a louça por lavar e a arrumação da cozinha para o Banco Central, que está obrigado a empurrar a inflação de volta para a meta, com o único instrumento de trabalho de que dispõe (a política monetária).

O ministro da Fazenda não é, no caso, o único omisso. Também a direção do Banco Central (e não só seu presidente) se esconde e prefere usar panos quentes a denunciar com clareza a natureza fiscal da inflação de demanda. Essa deve ser a principal razão por que o Banco Central vem perdendo a iniciativa na administração das expectativas. Semana após semana, a projeção de inflação feita pelos formadores de preços vai subindo, como mostra a pesquisa Focus, do Banco Central (veja gráfico).

Confira

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Há dois meses, a pesquisa Focus, do Banco Central, apurou que as 100 instituições ouvidas semanalmente projetavam para o final de 2010 uma inflação de 4,86%. Na semana passada, esse número já havia saltado para 5,32%.

São horizontais. O gerente executivo de Exploração e Produção do Pré-sal da Petrobrás, José Miranda Formigli Filho, pede reparo numa afirmação da coluna de domingo. “As camadas de sal estão sujeitas a cortes, deslocamentos horizontais (e não verticais, como foi dito) ou encavalamentos.”

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