A salvação da lavoura

A salvação da lavoura

Celso Ming

28 de fevereiro de 2014 | 21h00

No ano passado, com uma participação de apenas 5,7% na economia brasileira, a agropecuária sozinha foi responsável pela obtenção de 1,1 ponto porcentual nos 2,3 pontos de crescimento do PIB.

No dia 10 de fevereiro, em solenidade realizada em Lucas do Rio Verde (MT), a presidente Dilma reconheceu o excelente desempenho do agronegócio. Ela se referiu à “produtividade na veia” injetada na economia, graças ao aumento de 221% da produção de grãos em 20 anos com aumento da área plantada no mesmo período de apenas 41%.

Convém ter claras as diferenças entre conceitos. Agropecuária (como avalia o IBGE), agronegócio ou produção de grãos, por exemplo, não são rigorosamente a mesma coisa. Independentemente disso, a observação da presidente Dilma está correta. Apesar de tudo e contra tanta coisa, a agropecuária está dando show de produção e de produtividade, contribuindo decisivamente para o resultado da atividade econômica do País.

O setor soube aproveitar o salto de integração de camadas crescentes da população mundial ao mercado de consumo. Apenas na Ásia foram cerca de 30 milhões por ano ao longo dos últimos 15 anos. Foi o que aumentou substancialmente a demanda por alimentos, matérias-primas e energia, especialmente pela China. A agricultura brasileira surfou essa onda, faturou mais, mecanizou-se e passou a operar com tecnologia de ponta. Daí os resultados.

O governo brasileiro pouco contribuiu para isso. Ao contrário, mais atrapalhou do que ajudou. Basta levar em conta as dramáticas deficiências de transportes e rede de armazenamento e a desarticulação provocada no setor de açúcar e álcool pela desastrosa política de combustíveis adotada pelo governo Dilma.

Do ponto de vista macroeconômico, a forte contribuição do setor agropecuário aponta para nova vulnerabilidade. Não é possível sustentar esse desempenho para sempre, porque a agricultura enfrenta variáveis de difícil controle, como condições climáticas e, especialmente, preços internacionais, sempre sujeitos a volatilidades. Em 2012, por exemplo, o PIB da agropecuária caiu 2,1% (veja o gráfico).

Como a expansão do setor de serviços tende a se desacelerar e a indústria é de recuperação mais difícil, eventuais períodos de espigas chochas podem produzir fortes estragos no desempenho do PIB.

Essa é a principal razão pela qual novos ganhos de produtividade a serem obtidos com investimentos em transportes e maior emprego de tecnologia podem fazer a diferença.

Não dá para dizer que o governo esteja atento a essas novas demandas da política econômica. O xodó das administrações Lula e Dilma foram e continuam sendo as montadoras de veículos, que conseguem arrancar proteção alfandegária e reservas de mercado desta república sindicalista. E a tendência é de que a percepção corrente em Brasília é que a agricultura não precisa de cuidados porque se defende sozinha.

CONFIRA:

 

Aí está a evolução do superávit primário (sobra de recursos para pagamento da dívida) em 12 meses, comparado com o tamanho do PIB.

Promessa de pinguço. Apesar das juras e promessas de que largaria a bebida, o alcoólatra continua tomando o rumo do botequim. Os primeiros resultados do ano (janeiro) das contas públicas foram decepcionantes. Embora negada pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin, a suspeita é a de que o governo tenha empurrado para janeiro pagamentos que caberiam em dezembro apenas para mostrar resultados em 2013.

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