A vida vai melhorar. Quando?

A vida vai melhorar. Quando?

O brasileiro parece não dar importância à macroeconomia

Celso Ming

22 de outubro de 2014 | 21h00

Foi o presidente Médici que identificou em 1970 o desencontro entre a qualidade da economia do País e a qualidade de vida do brasileiro: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”, resumiu ele, frase que vai sendo repetida, como agora, nesta Coluna.

A Pesquisa Datafolha realizada terça-feira entre 4,3 mil eleitores de todas a regiões do País, com a metodologia do gênero, identifica situação inversa. O povão parece mais satisfeito com a vida e mais otimista com a economia, embora os indicadores técnicos apontem para o contrário – e muita reclamação continue acontecendo.

General Médici

Médici. O povo vai mal (Foto: Estadão/1969)

O crescimento econômico do Brasil é uma sucessão de mediocridades e promete ainda muitos meses de paradeira. A inflação, que vai perfurando o teto da meta e o bolso do consumidor, não dá sinais de trégua. Ao contrário, a simples correção dos preços atrasados, como o dos combustíveis, da energia elétrica e dos transportes urbanos, acena com ainda mais inflação, e não com menos. O investimento vai sumindo, a indústria está sendo sucateada e perde competitividade todos os dias. São realidades objetivas, medidas, avaliadas, interpretadas.

E, no entanto, o brasileiro parece não dar importância à macroeconomia. A campanha da presidente Dilma, que começou discutindo temas áridos até para especialistas, como autonomia do Banco Central e o tripé da política econômica, enveredou agora para o viés da tua-vida-melhorada. Tanta gente simples – dizem essas mensagens – acaba de pôr os pés em casa própria ou, se ainda não, acha que logo terá condições para isso. Tanta gente simples comprou geladeira e trocou a velha TV por um modelo de última geração. Tanta gente, algumas vezes por ano, passou a esticar um fim de semana na praia e passou a viajar de avião pra Belém do Pará. E quem hoje não pilota um celular, aparelhinho que facilita a vida, permite o uso de aplicativos espertos e já não deixa ninguém mais ilhado no mundo?

Completam a paisagem otimista os números do mercado de trabalho que apontam para uma situação de pleno-emprego. Cada vez mais gente sacudida prefere não buscar emprego, porque alguém de casa ganha Bolsa Família. É só completar o orçamento com uma viração, um servicinho no jeito – coisa que há alguns anos não acontecia.

A conclusão dessa pesquisa acena para alguma coisa errada porque esse quadro não é tudo nem a maior parte. Outros fatos ficaram repentinamente esquecidos. Há todo o sufoco conhecido, a baixa qualidade do ensino; o mau atendimento à saúde pública; a falta de segurança; as horas diárias perdidas na condução ruim e cara; e, mais que tudo, na cada vez maior falta de oportunidades para subir na vida.

Enfim, não dá para desconsiderar toda a energia das manifestações de junho/julho do ano passado e a carga de reclamações contra a qualidade de vida nas grandes cidades. Na própria área próxima do governo e do PT há os movimentos sociais, o dos Sem-Terra, o dos Sem-Teto e o dos sem outras coisas, que todos os dias passam o recado de que, ao contrário do que diz o governo, a vida é dura de levar, mesmo sem colocar nessa conta a falta d’água e a incerteza que vem com ela. A vida vai melhorar – canta Martinho da Vila. Mas ainda falta muito.

CONFIRA:

ReceitaServicosAgosto

Aí está a evolução do faturamento do setor de serviços. Indica enfraquecimento, uma vez que, dependendo da maneira como é medida, não compensa nem a inflação do período.

Queda
O rebaixamento da qualidade dos títulos da Petrobrás pela agência Moody’s é consequência da forte deterioração do caixa da empresa. É o que coloca em risco o pagamento da dívida de R$ 241 bilhões. Vários fatores concorreram para isso. Mas o maior predador das finanças da Petrobrás é o represamento dos preços dos combustíveis.

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