Acima das previsões

Acima das previsões

A inflação tende a se tornar fator relevante para a definição do jogo eleitoral;Nenhum analista esperava o 0,57% apontado nesta quarta-feira pelo IBGE.

Celso Ming

08 de outubro de 2014 | 21h00

A inflação de setembro ficou acima do esperado, puxou o avanço em 12 meses para 6,75% e tende a se tornar fator relevante para a definição do jogo eleitoral.

Nenhum analista esperava o 0,57% apontado nesta quarta-feira pelo IBGE. A expectativa do mercado, indicada pela Pesquisa Focus, do Banco Central (BC), era de que não passaria do 0,44%. E até mesmo as cinco instituições que mais acertam os prognósticos, os Top 5, ficaram no 0,40%.

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Desta vez, contribuiu mais para esse avanço a esticada dos preços dos alimentos, justamente o item que vinha colaborando para a inflação mais baixa em julho e agosto. Também foi relevante o salto dos preços no setor de serviços, no qual a concorrência dos importados é bem mais baixa.

A inflação de setembro veio mais espalhada. O índice de difusão (número de itens em alta) alcançou 61,4% da cesta de consumo, mais do que em agosto, quando foi de 55,3%.

Se a evolução do IPCA de outubro vier superior a 0,57%, a inflação em 12 meses também subirá para acima dos 6,75%. Mas há razoável probabilidade de que, em todo o ano de 2014, fique abaixo do teto da meta, de 6,5%, porque a evolução do IPCA em dezembro de 2013 foi de 0,92%, relativamente alto para ser superado em dezembro deste ano.

Há, no entanto, uma variável cujo impacto é de difícil avaliação. Trata-se do reajuste dos preços dos combustíveis. O ministro Guido Mantega afirmou inúmeras vezes que esse reajuste virá ainda este ano, supostamente logo após as eleições. A inflação de 2014 vai depender do tamanho desse reajuste. O economista Salomão Quadros, da Fundação Getúlio Vargas, para o Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), avalia que o atraso dos preços da gasolina é de 19,8% e o do óleo diesel, de 10,7%. Se os preços forem reajustados nessa proporção, o impacto sobre a inflação seria de 0,46 ponto porcentual.

Outra variável capaz de puxar a inflação para cima é o ajuste do câmbio que, por sua vez, também terá influência no desalinhamento dos preços dos combustíveis, porque o petróleo está cotado em dólares. Por enquanto, o BC vem despejando munição pesada para conter a alta do dólar. No entanto, passadas as eleições, o câmbio deve atuar bem mais solto, mesmo se o candidato da oposição sair vencedor.

De todo modo, é provável que 2015 comece com uma inflação anual mais alta, próxima dos 7,0%. Isso significa que, seja qual for a composição do próximo governo, será inevitável um aperto contra a inflação, não só por meio da alta dos juros básicos (Selic), mas, também, por meio de maior aperto da política fiscal. Em outras palavras, a batalha contra a inflação deverá ser parte importante do novo mix de políticas a ser adotado.

É bem mais complicado avaliar até que ponto a inflação mais alta será fator relevante no voto do segundo turno das eleições, no dia 26 de outubro. O clamor por mudanças tem sido apontado como determinante na definição da opinião do eleitorado. O reconhecimento pela presidente Dilma de que não teve voto em São Paulo demonstra que a operação de cooptação do eleitor de baixa renda com a distribuição de Bolsas Família não é suficiente para garantir a reeleição.

CONFIRA:

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Aí está como vêm evoluindo tanto os preços livres como os administrados.

O fator Europa
O principal recado passado nesta quarta-feira ao mercado internacional pela ata do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) é o de que o desempenho da atividade econômica dos EUA pode ser fortemente prejudicado pelo ambiente recessivo da Europa e do Japão e pelo baixo crescimento da China. Do ponto de vista prático, essa análise foi entendida como fator que tende a frear o enxugamento de dólares pelo Fed, já programado para o primeiro semestre de 2015.

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