Adiamento arriscado

Adiamento arriscado

Celso Ming

06 de fevereiro de 2014 | 21h00

Certos ambientalistas têm manifestado preocupação com o início da exploração de gás de xisto no Brasil.

Advertem que a tecnologia utilizada (injeção a alta pressão de uma mistura de água, areia e produtos químicos) carrega o risco de contaminar lençóis freáticos e os aquíferos do Brasil e de países vizinhos. Foi o que argumentaram os geólogos Gerôncio Albuquerque Rocha, Ricardo Hirata e Luiz Fernando Schelbe, em artigo publicado terça-feira no jornal Valor. Eles reivindicam o adiamento de iniciativas desse tipo “por pelo menos cinco anos (…), o tempo necessário para amadurecer uma estratégia para a próxima década”.

Não são desprezíveis as razões apontadas por estes e outros técnicos. Mas são excessivamente fechadas em si mesmas. Há outras, tão importantes ou mais, a levar em conta.

Se é para ficar no campo puramente ambiental, considerações diferentes dessa recomendam, sim, a exploração do gás de xisto. Por exemplo, a produção de energia térmica por processamento de gás de xisto libera muito menos monóxido de carbono na atmosfera do que a obtida por outros combustíveis, como já acontece nos Estados Unidos.

Ou, pergunta-se, do ponto de vista do balanço ambiental, seria mais recomendável seguir queimando carvão ou óleo combustível, em vez de gás natural? Seria melhor inundar mais áreas e afogar florestas na Amazônia para construir novas hidrelétricas? Ou, então, seria melhor entrar de cabeça na produção de energia nuclear e enfrentar riscos de novos casos Chernobyl e Fukushima?

Há outras avaliações a fazer. É preciso saber, por exemplo, se os riscos de não começar já a exploração dessas reservas de xisto não são maiores do que os que estão temendo os ambientalistas.

A tecnologia atual da exploração do xisto (fraturamento hidráulico) vem evoluindo rapidamente e os riscos de contaminação já são bem mais controláveis. Além disso, outras tecnologias em substituição à do fraturamento hidráulico começam a ser adotadas nos Estados Unidos e nada impediria que também o fossem por aqui.

Adiar, por excesso de zelo ambientalista, o início do jogo seria dar enorme dianteira à concorrência externa, especialmente aos Estados Unidos, Canadá e México. Não há nenhuma questão financeira envolvida na exploração de gás de xisto, como equivocadamente alegam os geólogos. Há, sim, sérias questões econômicas a considerar, num país cuja matriz energética depende cada vez mais de fontes térmicas (veja, ainda, o Confira).

Os preços do milhão de BTU (medida britânica de gás) nos Estados Unidos estão embicando para US$ 4, quase um quarto do que é pago aqui. Essa revolução do xisto tende a alijar do mercado enormes segmentos da indústria brasileira, especialmente entre os de consumo eletrointensivo. Esta é uma questão estratégica que tem de ser enfrentada já. Encostar o corpo e esperar para ver é falta de vontade de encarar os desafios, é uma atitude que já vem atrasando demais o desenvolvimento do Brasil, que não pode ser subordinado unicamente a aplicações unilaterais do princípio de precaução.

CONFIRA:

O gráfico mostra a queda do nível dos reservatórios no Sudeste e Centro-Oeste nos últimos sete meses.

Mais dependência. A falta de chuvas e mais um apagão de enormes proporções como o de terça-feira acentuaram a dependência de fontes térmicas de energia elétrica. É uma conta adicional de R$ 8 bilhões a R$ 15 bilhões a ser descarregada sobre o consumidor ou o Tesouro. A questão principal não é o sobrepreço. É a necessidade de mais queima de combustíveis fósseis para a produção de energia elétrica, o que fortalece a necessidade de gás natural.

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