Aflição adiada

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Aflição adiada

Celso Ming

18 de setembro de 2013 | 20h00

Com alguma surpresa, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) anunciou nesta quarta-feira a manutenção dos estímulos de sua política monetária ultraexpansiva.

Durante meses a fio, membros do próprio comitê haviam insistido em que a mudança deveria começar em setembro. Foi assim que se firmou a expectativa de que a data de referência fosse nesta quarta. Não foi.


Bernanke. Não chegou a hora (FOTO: Doug Mills/The New York Times)

O argumento apresentado pelo presidente do Fed, Ben Bernanke, para continuar a injeção mensal de dólares em compra de títulos de US$ 85 bilhões foi o de que a economia dos Estados Unidos não estava suficientemente saudável para livrar-se da muleta monetária. Como ninguém espera forte virada na situação do emprego nos Estados Unidos, parece improvável que a política mude ainda este ano.

Nesta quarta, o presidente Obama voltou a advertir os congressistas de que é preciso rápida solução para o problema fiscal, que vem sendo sucessivamente protelada. Ou o Congresso autorizará a elevação do teto da dívida (debt ceiling), hoje nos US$ 16,7 trilhões, ou o governo dos Estados Unidos será obrigado a reduzir drasticamente suas despesas, saída cujo resultado imediato será novo aperto na economia. A decisão do Fed provavelmente levou em conta a boa probabilidade de que esse aperto fiscal aconteça. Seria altamente prejudicial à economia americana se essa eventual retranca fiscal coincidisse com o início de retranca monetária. Na entrevista concedida nesta quarta, Bernanke denunciou a gravidade da situação fiscal dos Estados Unidos.

A enorme emissão de dólares por meio da recompra de títulos públicos e privados no mercado foi a resposta pouco ortodoxa do Fed a partir de 2008 à prostração da economia causada pela crise financeira global. Trata-se de uma iniciativa ousada que, em vários aspectos, pareceu ultrapassar os limites do mandato institucional do Fed. Apesar disso, a operação não encontrou obstáculos sérios, porque o entendimento geral foi que já se sabe desde a Lei das Doze Tábuas (século 5.º a.C.): “a salvação do povo é a lei suprema”.

O problema é que essas armações são mais fáceis de justificar e de colocar em marcha do que de desmontar. O início do processo de reversão esbarra em dois obstáculos: o de não se conhecer o perfil de quem vai comandá-lo, uma vez que Bernanke deixa a presidência do Fed em janeiro; e o de que o momento é de demanda relativamente mais baixa por títulos de primeira linha, uma vez que os emergentes já não aumentam suas reservas na mesma velocidade de há alguns anos e, portanto, não empilham mais títulos do Tesouro americano.

Explicando melhor esse último ponto: a reversão da política monetária implica revenda de títulos públicos pelo Fed. Se a demanda por esses títulos está prejudicada pelas compras menores por parte dos emergentes, o risco de puxada forte nos juros ficaria aumentado e a alta poderia prejudicar os investimentos e a recuperação da economia americana.

O adiamento da mudança da política do Fed provocou ainda nesta quarta imediata desvalorização do dólar nos mercados, inclusive aqui no Brasil (veja o Confira), redução da remuneração dos títulos e alta nas bolsas. A aflição pela volta da turbulência global fica assim temporariamente desvanecida. Para o Brasil, isso pode significar redução da pressão (da alta do dólar) sobre a inflação.

CONFIRA:

Acima, os solavancos das cotações do dólar no câmbio interno apenas nesta quarta. A derrubada ocorreu depois das 15 horas, quando ficou conhecida a decisão do Fed (o banco central dos Estados Unidos).

Queixas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já se queixara da política expansionista do Fed. Denunciou, inclusive no G-20, como prejudicial ao Brasil, o que chamou de guerra cambial dos Estados Unidos. Depois, queixou-se da ameaça da suspensão dessa política. Falta saber se também vai se queixar do adiamento da reversão da política.

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