Afrouxar ou não afrouxar

Celso Ming

22 de setembro de 2010 | 18h50

A necessidade de despejar mais recursos públicos nos Estados Unidos para reativar a economia não está sendo encarada apenas como providência que, em última análise, vai melhorar o desempenho do setor produtivo global. Começa a ser avaliada como ameaça à estabilidade cambial no resto do mundo.

No momento, a ficha da economia americana é um tanto desoladora. O PIB deste ano não deve crescer mais do que 2,5%; o desemprego é recorde, 9,6% da força de trabalho; os juros básicos rastejam quase nada acima de zero por cento ao ano e tão cedo não subirão; o rombo orçamentário será de US$ 1,5 trilhão no exercício fiscal que termina dia 30; a dívida líquida passa de US$ 8,9 trilhões e deverá saltar para US$ 11,1 trilhões em 2011.

As críticas à administração econômica do presidente Obama se multiplicam. Em apenas três meses, dois dos mais importantes assessores econômicos da Casa Branca, Christina Romero e Larry Summers, saíram do governo. O último comunicado do Fed (banco central) foi lancinante. Reconheceu que o setor produtivo não reage, que o risco de deflação aumenta e que os efeitos ruins sobre o emprego são preocupantes.

Para enfrentar esse quadro, o Fed avisou que pode aprovar novo plano de afrouxamento quantitativo. Trata-se de emitir moeda para recomprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos, com o objetivo de criar condições para a retomada do crédito e do consumo.

Há meses essa proposta passeia pela mesa do presidente do Fed, Ben Bernanke. E uma das poucas razões que o levam a contar até 100 antes de tomar essa decisão são as dúvidas sobre sua eficácia. Até agora, o Fed enfiou para dentro de seu balanço US$ 1,7 trilhão em títulos privados e outros US$ 300 bilhões com recompra de títulos do Tesouro americano. O Congresso aprovou também US$ 150 bilhões em cortes de impostos mais os US$ 700 bilhões do Programa de Alívio para Ativos Problemáticos (Tarp). A título de resultados, vê-se que o pânico foi debelado, mas foi só. Não há sinal de retomada de contratações de pessoal.

A mais provável razão desse insucesso é a de que o despejo desses recursos não teve como objetivo investimentos em infraestrutura, como recomendava Keynes. Foi dinheiro usado no socorro aos bancos, na recompra de títulos de crédito desacreditados do setor privado e, em alguma medida, na criação de mercado para títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

Embora alguns analistas insistam em que será preciso aumentar as despesas públicas para garantir a retomada, o Congresso tenderá a rejeitar essa ideia, dado o tamanho do rombo fiscal americano.

Assim, resta a máquina monetária. Os mercados reagiram com ceticismo à manifestação do Fed porque não se trata de botar em marcha projetos de investimento em infraestrutura, mas de novas rodadas do chamado afrouxamento quantitativo, cujo principal efeito será a desvalorização do dólar não só diante das outras moedas, como também de outros ativos (ouro, commodities, imóveis). Em dois dias, o simples anúncio do Fed provocou alta de 2,3% no euro e de 0,9% no ouro.

O que se pergunta agora é se providências dessa natureza não acionarão políticas de defesa cambial ao redor do mundo, que, na prática, neutralizarão os efeitos desejados pelo Fed.

CONFIRA

Esticada. Em 12 meses, até agosto, as operações de crédito no Brasil aumentaram 19,2%. Só o segmento do crédito habitacional avançou, no mesmo período, 51,0%.

Salto do consumo. A expansão do crédito e o forte aumento das despesas públicas são os dois mais importantes fatores que explicam o avanço de cerca de 7% no consumo no País. E são, também, a principal razão por que as importações se expandem mais de 45,0%.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.