Alarme falso

Alarme falso

Em novembro, a grande imprensa mundial e a internet espalharam informações sobre a iminência do sumiço do chocolate

Celso Ming

27 Dezembro 2014 | 16h00

Em novembro, a grande imprensa mundial e a internet espalharam informações sobre a iminência do sumiço do chocolate.

Os chineses teriam descoberto a maravilha e passaram a consumir em quantidade tal que estaria próximo o dia em que o mundo ficaria ameaçado de escassez aguda. Outros boatos davam conta de quebras graves de produção. Algumas projeções, atribuídas a duas gigantes do setor, apontavam não para disparada do consumo, mas para quebra da oferta dentro de cinco anos: déficit de cacau de 2 milhões de toneladas em 2020, o equivalente a 46,5% da produção mundial em 2013.

CACAU

Para alívio dos chocólatras, a Organização Internacional do Cacau (ICCO) e grande número de analistas de mercado descartam o cenário desolador. O ano-safra internacional do cacau, que terminou em setembro de 2014, apontou recordes de produção na Costa do Marfim e em Gana, os dois maiores produtores mundiais. O aumento foi de 10,2% em relação à safra de 2013, para 4,3 milhões de toneladas produzidas.

Não se confirmaram as projeções pessimistas de que a epidemia de Ebola no oeste da África (região que concentra 70% da produção mundial de cacau) e o abandono das plantações para plantio de outras culturas na Indonésia comprometeriam a safra deste ano. Mas esses temores produziram outro efeito: estocada dos preços de 26,5% na bolsa de Nova York, entre janeiro e setembro. A tonelada para entrega em março de 2015 chegou a US$ 3.373. Hoje, oscila em torno dos US$ 3 mil por tonelada.

De 2005 até agora, em cinco anos, o mercado de cacau apontou produção superior à quantidade processada e, em outros cinco, situação inversa. (Veja o gráfico acima.) No momento, os estoques alcançam 1,6 milhão de toneladas, o equivalente a 40% da média da produção anual nos últimos dez anos.

O consultor e produtor de cacau Thomas Hartmann é um desses especialistas que fazem questão de desmentir qualquer perspectiva de escassez: “O quadro é de equilíbrio entre oferta e demanda. Qualquer oscilação acaba sendo ajustada pelos preços”. Hartmann entende que a relativa estagnação da demanda vem desestimulando os investimentos, mesmo quando os preços sofrem alguma alta. Como a economia global não promete solavancos, esse quadro tende à estabilidade, e não ao contrário.

A estagnação dos investimentos no Brasil tem outros fatores, como observa o secretário executivo da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), Walter Tegani: “Os produtores da Bahia (Estado que concentra 60% da cultura cacaueira do País) estão mergulhados em dívidas. Não conseguem investir em novas áreas nem em aumento da produtividade. Além disso, a mão de obra está migrando para a construção civil”.

Tegani prevê que, em 2014, a moagem fique abaixo das 230 mil toneladas de 2013. Historicamente, a produção do País é insuficiente para atender à demanda da indústria nacional. Daí por que importa cerca de 30 mil toneladas por ano.

Bem, se é assim, por que a boataria? Boa hipótese é que tenha sido espalhada por produtores de chocolate, como recurso de marketing destinado a puxar pelos preços. Simples assim. / COLABOROU LAURA MAIA

CONFIRA:

A vez da Caixa
Na última segunda-feira, a presidente Dilma confirmou a informação de que pretende abrir o capital da Caixa Econômica Federal. O objetivo é lançar ações no mercado para captar cerca de R$ 20 bilhões. Mas, para isso, será preciso mudar muita coisa na Caixa.

Falta de transparência
O que há de mais importante num banco é a qualidade dos seus ativos. Ninguém sabe o que tem lá dentro. É cerca de R$ 1 trilhão em empréstimos e financiamentos, com uma história nem sempre edificante. Governos estaduais, prefeituras e políticos de todas as colorações devem e pagam quando puderem. Preferem sempre as “soluções políticas”.

Questão de cultura
Uma abertura de capital, que no mercado leva o nome de IPO (Initial Public Offering), não exigiria apenas o saneamento da Caixa, o que já seria um passo enorme. Exigiria mudança radical de cultura administrativa. O Banco Central tem isso, coisa que não se consegue de um ano para outro.