Alguma acomodação

Alguma acomodação

Por aqui, os números de novembro mostraram certa acomodação. Refletem o que acontece no resto da economia brasileira: paradeira da atividade produtiva, tendência à redução do emprego e queda acentuada dos preços das commodities

Celso Ming

05 Dezembro 2014 | 21h00

Com Rússia, Turquia, Índia, Paquistão, Egito, Argentina e Venezuela, o Brasil integra o grupo dos países de inflação mais alta do mundo.

No período de 12 meses terminado em novembro, o IPCA, medidor oficial do custo de vida utilizado para a definição dos juros básicos na economia, parou nos 6,56%. Este foi o quarto mês consecutivo em que a inflação ultrapassou o teto da meta, os tais 6,5%, correspondentes à meta anual de 4,5%, mais os dois pontos porcentuais de escape.

IPCA5dez

Nos países avançados, a inflação anual se arrasta entre 2,5% e 0,0%. Nos Estados Unidos, por exemplo, é de 1,8%; na área do euro, de 0,5%; e na Grã-Bretanha, de 1,6%. Por aqui, os números de novembro mostraram certa acomodação. Refletem o que acontece no resto da economia brasileira: paradeira da atividade produtiva, tendência à redução do emprego e queda acentuada dos preços das commodities.

Mas a alta geral continua forte e disseminada, mesmo com esses juros na lua, de 11,25% ao ano, que, na quarta-feira, foram puxados em mais meio ponto porcentual. É forte quando comparada com ela própria. A meta do governo é inflação de 4,5% no fim do ano, mas entregará alguma coisa próxima dos 6,5%. Está muito disseminada quando se leva em conta que 61,6% dos itens que compõem a cesta média de consumo do brasileiro sofreram alta em novembro.

Desta vez, o impacto dos preços administrados, os que dependem de decisão do governo para se recompor (cerca de 25% dos preços da economia), teve uma influência mais forte, de 0,72%, em relação aos níveis do mês anterior. Aí pesaram mais os reajustes da gasolina (que na refinaria foi de 3,0%) e da energia elétrica, de 1,67%.

Apesar do aperto no volume de moeda (política monetária), a inflação dos próximos meses deve continuar mais ou menos nos níveis de hoje. O Banco Central não esconde o pedaço já encomendado de inflação que provém do realinhamento dos preços. Não é outra coisa senão os reajustes dos preços administrados, o encarecimento dos importados em consequência do dólar mais caro em reais e, também, da safra de reajustes que normalmente acontecem na virada do ano: impostos (e aí está o IPTU do prefeito paulistano, Fernando Haddad), mensalidades escolares e serviços. Também menciona em seus documentos a pressão de custos que provêm do mercado de trabalho ainda aquecido, embora se espere que, em alguns meses, esse jogo possa variar bastante.

Agora que as projeções do mercado passaram a ser levadas mais a sério pelo governo, convém levar em conta que, nesse segmento, as expectativas de inflação continuam muito altas. O levantamento semanal feito pelo Banco Central por meio da Pesquisa Focus apontava, na semana passada, para uma inflação, em 2015, de 6,49%. Mas as cinco instituições que mais acertam as projeções já apontavam para mais: 6,72%.

A briga contra a inflação é especialmente questão de confiança. Se perceberem que o governo parou de enganar e passou a controlar a corrida, os formadores de preços serão os primeiros a trabalhar para derrubá-la.

CONFIRA:

PrecosVariacaoDez

Aí está a evolução dos preços administrados e dos preços livres.

O teto do ano
A inflação de dezembro de 2013 foi a mais alta do ano (0,92%). Para o cálculo do IPCA de 2014, sai a inflação de dezembro de 2013 e entra a de 2014. Se o índice deste mês de dezembro for de até 0,86%, a inflação do ano ficará abaixo do teto da meta.

Contra Putin
Para o ex-ministro Delfim Netto, a principal consequência da baixa do petróleo é o estrago na administração do presidente da Rússia, Vladimir Putin.

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