Alta demais

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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Alta demais

Celso Ming

08 de maio de 2013 | 20h00

Ainda não há boas notícias da inflação. Ela continua alta, à beira do inadmissível, e espalhada demais.

Em abril, a evolução do IPCA ficou em 0,55%, acima das expectativas do mercado, de 0,45% – como mostrou a pesquisa Focus, do Banco Central.

Os otimistas incorrigíveis dirão que, no período de 12 meses terminado em abril, houve recuo da inflação de 6,59%, em março, para 6,49% – já abaixo da linha de tolerância, os tais 6,50%, incluída aí a área de escape. Esse efeito aconteceu porque, nos cálculos, saiu a inflação de abril de 2012, de 0,64%, e entrou esse 0,55% de abril deste ano. Não dá para baixar a guarda. Trata-se de recuo irrelevante.

Dentro do governo há diagnósticos divergentes para a trajetória da inflação. Para as autoridades do Ministério da Fazenda é o resultado preponderante de choques de oferta, como acontece com a alta do tomate, da farinha de mandioca e da cebola – o que deve se resolver quando a produção se normalizar.

Mas para outros setores, sobretudo para o Banco Central, o galope tem mais a ver com a demanda maior do que a procura, por sua vez, relacionada com despesas excessivas do governo e com o aquecimento do mercado de trabalho.

Essa divergência não é de natureza acadêmica. Implica manejar ou não políticas. Para a Fazenda, é melhor esperar até que a produção agrícola se normalize. Para o Banco Central, é preciso atacar as verdadeiras causas com disciplina orçamentária e com redução do volume de dinheiro na economia (alta dos juros).

Não dá para negar que o impacto da alta dos alimentos é forte: avanço de 14,0% em 12 meses. Mas não explica tudo. A inflação está espalhada demais, não está concentrada nesse setor, como mostra o índice de difusão ainda alto, de 65,8%. (Esse termômetro indica o número de itens da cesta de consumo que registraram alta de preços.) A inflação dos serviços, de 8,12% em 12 meses, dá razão ao Banco Central.

Nos próximos meses, a alta dos alimentos deve se acomodar. Em compensação, há número relativamente alto de reajustes programado para as próximas semanas, que deve puxar para cima a inflação em 12 meses.

E, mais do que isso, tanto os governos seguem gastando demais como o mercado da mão de obra continua elevando os salários, criando renda e consumo.

Os dois maiores efeitos perniciosos de curto prazo da inflação são a erosão do poder aquisitivo do trabalhador e a valorização do câmbio real. A redução do poder aquisitivo eleva a pressão dos sindicatos por reajustes de salário ou pela adoção do gatilho salarial (reajuste sempre que a inflação atingir determinado nível) que, se aceito, tende a realimentar a inflação. A queda do poder aquisitivo ainda acirra a inadimplência (calote).

A erosão do câmbio real é a perda de competitividade imposta ao setor produtivo quando seus custos sobem com a inflação sem evolução correspondente da cotação da moeda estrangeira. O resultado é o encarecimento do produto nacional e barateamento do importado.

A tendência nos próximos meses é de que a inflação se mantenha alta, embora com algum recuo ocasional.

CONFIRA

Acima, os seis alimentos cujos preços mais subiram no período de 12 meses terminado em abril.

Sem alívio. O campeão do ano, o tomate, manteve forte alta em abril, de mais 7,4%. A farinha de mandioca, castigada pela forte seca nordestina, também: mais 4,4%. E os preços da cebola, que haviam subido 21,4% em março, saltaram 11,0% no último mês.

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