Anti o quê?

Anti o quê?

Vem agora essa pressão insistente para que o governo Dilma desista do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida); É indicação de que a nova administração não tem clareza sobre o caminho a seguir

Celso Ming

06 de novembro de 2014 | 21h00

Vem agora essa pressão insistente para que o governo Dilma desista do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida). É indicação de que a nova administração não tem clareza sobre o caminho a seguir.

Essas pressões vêm tanto do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, quanto do secretário do Tesouro, Arno Augustin. Eles insistem em que o momento é de adotar políticas anticíclicas para combater a estagnação. No caso, a política anticíclica é a derrubada do superávit primário, supostamente a título provisório, até que a paradeira seja superada.

DividaSetN

No entanto, até agora, o governo Dilma não fez outra coisa senão determinar políticas anticíclicas para enfrentar a recessão. Foi para isso que as despesas públicas dispararam e o superávit primário foi reduzido quase a zero. E com que resultado? Com a derrubada do PIB a também alguma coisa em torno de zero, inflação acima do teto, confiança ao nível dos porões e dezenas de distorções graves na economia.

Se não há superávit primário a apresentar e se é preciso, ainda, aplicar políticas anticíclicas, fica sugerido que a política econômica irá operar com déficit fiscal, sem que este garanta recuperação do PIB. Isso aponta para mais do mesmo. É dobrar a aposta perdedora. Mas, nesse caso, para onde iria a dívida? (Veja o gráfico.)Essa gente não entendeu que não há mais espaço para esse tipo de política.

A estagnação não é o único grande problema econômico à espera de equacionamento. Outro é a inflação. Se não poderá contar com a austeridade orçamentária; se, também, não caberá mais o uso da política cambial (dólar relativamente barato em reais) para segurar os preços dos produtos importados e, por tabela, os demais preços; e se, igualmente, não poderá manter represadas as tarifas administradas (combustíveis, energia elétrica e transporte urbano), é preciso saber como o governo pretende combater a inflação. Deixará o Banco Central (BC) sozinho para segurar o rojão só com a política monetária? Nesse caso, para que nível terão de ir os juros básicos (Selic) para evitar um estouro?

Saiu ontem a Ata do Copom. Lá, o BC aponta as razões que o levaram a puxar a Selic de 11,0% para 11,25% ao ano. De acordo com o diagnóstico, são duas as principais pressões de alta: (1) despesas excessivas dos governos, algo que fica claro quando o BC admite que “o balanço do setor público” ainda vai convergir para a zona da neutralidade (não chegou lá até agora); e as pressões de custos trabalhistas, na medida em que a falta de folga do mercado de trabalho puxa os salários em ritmo superior ao do aumento da produtividade.

O baixo crescimento econômico e a alta inflação (ou seja, a estagflação) não são os únicos problemas macroeconômicos a exigir administração de crise para impedir o desastre do rebaixamento da qualidade da dívida brasileira. A falta de investimento, o baixíssimo nível de confiança, as consequências da estiagem e as incertezas quanto ao suprimento futuro de energia são outros quatro.

Acionar as chamadas políticas anticíclicas, que ninguém entendeu que alcance terão, não basta para equacionar os problemas da área econômica.

CONFIRA:

VeciulosOutubro2014

Acompanhe acima o que aconteceu com a produção e vendas do setor de veículos.

Beber água do Tietê
O engenheiro Paulo Sayão explica que o reúso da água dos esgotos pelo governo do Estado aproveitará o produto das estações de tratamento de esgoto que passarão por processamento complementar. Ele não vê como possível o aproveitamento imediato das águas do Tietê, “que são esgoto bruto in natura”, na medida em que exigiriam investimentos de demorada maturação. Mas entende que isso pode ser inevitável “em futuro próximo”.

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