Apagão de soluções

Apagão de soluções

Celso Ming

21 de junho de 2013 | 20h00

A combinação de políticas econômicas experimentalistas do governo Dilma não tem respostas adequadas e firmes para a maioria dos problemas macroeconômicos do País.

O crescimento continua sendo enfrentado com pacotes destinados predominantemente a puxar pelo consumo, como se viu há dez dias, quando o governo lançou um programa de R$ 18,7 bilhões em recursos públicos para financiamentos com juros subsidiados para a compra de móveis e aparelhos domésticos. Os investimentos seguem lentos demais. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) continua empacado e as concessões para construção e ampliação de portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, exploração de petróleo e energia elétrica, entre outras, esbarram na ineficiência do setor público até mesmo para leiloar concessões e prover licenciamento ambiental. O investimento continua em insatisfatórios 18,4% do PIB, como viu-se na última edição das Contas Nacionais.

Para contra-atacar a inflação espalhada e renitente que ultrapassa o teto da meta de 6,5% em doze meses, o governo aceitou a virada do Banco Central, que desistiu de esperar para ver e voltou a puxar os juros básicos para cima, “até o nível que vier a ser necessário”. Mas se recusa a usar a arma mais poderosa e indispensável, que é a política fiscal austera e responsável.

No discurso oficial, a inflação nunca escapou do controle e se deve sempre a choques externos de oferta, nunca a problemas internos. A estratégia do governo é esperar que reflua mais ou menos espontaneamente ou que os preços sejam estancados com conversa.

No relatório sobre as Contas Externas divulgado nesta sexta-feirapelo Banco Central, se viu que, em cinco meses, o rombo nas Contas Correntes (comércio exterior de mercadorias e serviços mais transferências unilaterais), em doze meses, saltou de 2,4% para 3,2% do PIB. Como a ênfase continua sendo a expansão do consumo, como ficou dito, a tendência é de que as importações cresçam mais rapidamente do que as exportações. Mais ainda, a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos não deverá mais cobrir esse rombo, porque os capitais internacionais passarão a tomar o rumo dos Estados Unidos. A remoção do IOF de 6% na entrada de recursos externos destinados às aplicações financeiras e de 1% nas operações com derivativos cambiais não parece suficiente para reverter os fluxos.

O governo também não tem resposta firme para a crescente perda de competitividade da indústria. O programa de desonerações tributárias é caro, segmentado e gerador de distorções. Setores da indústria que não forem os de veículos e de aparelhos domésticos são, na prática, considerados de segunda classe e dificilmente integram as listas dos favorecidos. E a intenção de desvalorizar o real para baratear em dólares as exportações esbarra agora no avanço da inflação.

Também não se vê iniciativa destinada a aumentar o mercado externo para o setor produtivo nacional. O governo segue prestigiando os perfuradíssimos tratados do Mercosul e submeteu-se à retranca comercial da Argentina. Não há negociação de nenhum acordo comercial bilateral com outro bloco de países que pudessem dar alguma preferência ao produto brasileiro.

Enfim, o mix de políticas do governo Dilma não se limitou a desmontar o tripé anteriormente bem-sucedido (responsabilidade fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante). Já não consegue resolver os problemas que aí estão.

CONFIRA:

 

O gráfico mostra como evoluiu o IPCA-15 acumulado em 12 meses. O IPCA-15 é o mesmo IPCA medido em 30 dias, com a diferença que vai apenas até o dia 15 de cada mês. É um indicador que antecipa a inflação mensal.

Meta estourada. O estouro do teto da meta de 6,5% em 12 meses é inevitável neste mês e no próximo. Depois disso, ainda vai-se ver o quanto da alta do dólar será repassado para a inflação. O índice de difusão (que mede quanto a inflação está espalhada), continua alto, em torno dos 62%.