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Apertar o cinto, ou não

Celso Ming

10 de julho de 2010 | 16h00

Nada de novo sob o sol, diz o Eclesiastes, e entre as novidades tão velhas quanto o mundo há hoje esse debate sobre o que os governos responsáveis devem fazer para sair da crise: gastar mais para induzir o crescimento numa economia bloqueada pela crise ou impor uma rígida disciplina fiscal para restabelecer a credibilidade dos títulos públicos e o crescimento sustentável?

Ao longo dos anos 70, 80 e 90, foi essa política de austeridade que os ricos impuseram aos países pobres. Agora eles estão divididos sobre se devem ou não aplicá-la à sua própria carne.

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MERKEL – Disciplina fiscal (Foto: Thomas Peter / Reuters – 6/7/2010)

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, têm insistido em que a hora é de apertar o cinto, e não o contrário. Sem austeridade, os juros subirão, a dívida ficará ainda mais alta e logo virá o dia em que o país perderá o crédito e a capacidade de crescer.

O governo americano, especialmente o secretário do Tesouro, Tim Geithner, sustenta o contrário: que a hora é de aumentar as despesas públicas para criar renda, consumo e mais produção para que as economias saiam do buraco.

Em seguida, raciocinam, virá mais arrecadação e as finanças públicas se recomporão. São argumentos um tanto toscos que tentam retomar em outro contexto as propostas do economista inglês John Maynard Keynes.

Geithner e um punhado de analistas que concordam com seu ponto de vista, como os Prêmios Nobel Paul Krugman e Joseph Stiglitz, no fundo querem que o resto do mundo faça o jogo dos Estados Unidos. Que se ative o consumo para aumentar as exportações americanas.

Mais sofisticado e mais complexo é o argumento do comentarista do Financial Times Martin Wolf. Ele faz lá algumas contas e chega à conclusão de que há sobra de poupança. Ou seja, por mais que reclamem de que os títulos dos países ricos já não têm a mesma credibilidade, os investidores internacionais não têm opção. Seu dinheiro terá necessariamente de continuar (ou voltar) a comprar títulos de dívida de Estados soberanos de primeira linha.

Eles até tentarão diversificar, um pouco em ouro e outro pouco em títulos de países emergentes, mas não podem ir muito longe porque os emergentes são investidores líquidos e não mais devedores. Eles têm sobras (superávits) que vão para as reservas que, por sua vez, são constituídas de títulos de países ricos.

Isso posto, não há nenhuma razão especial, argumenta Wolf, para que esses países se atirem à política do olho esbugalhado e da língua de fora. Sempre haverá quem se interesse por financiar seu aumento de dívida e esta é a hora de aproveitar essa força.

Esse e os outros argumentos não comovem os dirigentes europeus, por uma única e definitiva razão. Eles não estão em condições de suportar mais uma temporada de derrubada das cotações do euro. A deterioração das finanças dos países da área do euro não para na perda de credibilidade. Ela compromete a saúde dos bancos, que são os grandes detentores de títulos de dívida, e, concomitantemente, provoca enorme desova de ativos denominados em euros, que, por sua vez, derruba as cotações da moeda.

Se o projeto europeu é consolidar sua moeda, então não há opção melhor do que garantir o ajuste das finanças públicas e, com ele, o alicerce fiscal do euro.

Confira

Não funcionou. O comportamento da economia americana é um forte argumento de que aumento de despesas do governo não necessariamente produz a recuperação nem cria empregos. Nos Estados Unidos, não funcionou.

O desemprego continua. Apenas o Tesouro dos Estados Unidos despejou na economia americana US$ 1 trilhão a título de estímulo oficial para a recuperação. No entanto, o crescimento do emprego praticamente não aconteceu. O índice de desemprego melhorou (caiu de 10,1% em outubro para 9,5%), mas não dá para ignorar que a força de trabalho perdeu 650 mil pessoas.

Once for all. E nunca é demais relembrar que a recomendação de Keynes para a recuperação da Grande Depressão dos anos 30 não foi o aumento de despesas correntes do Estado, que se perpetuam, mesmo depois da eventual recuperação. Foi o aumento de despesas de investimento em infraestrutura, feitas apenas uma vez (once for all).

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