As bandas do câmbio

As bandas do câmbio

Celso Ming

23 de novembro de 2012 | 20h00

Desde segunda-feira vinha prevalecendo no mercado de câmbio a aposta de que o governo deixaria que as cotações da moeda estrangeira escapassem para alguma coisa em torno de R$ 2,20 por dólar, como empurrão adicional destinado a dar mais competitividade ao setor produtivo, principalmente à indústria.

Declarações recentes da presidente Dilma Rousseff pareceram dar sustentação a essa percepção. Essa foi uma das razões pelas quais o mercado resolveu se antecipar e partir para as compras de moeda estrangeira. Em somente 24 dias (até 11h00 de sexta-feira), as cotações tinham avançado nada menos que 4,2%.

Mas nesta sexta-feira, quando o mercado negociava o dólar a R$ 2,12, o Banco Central anunciou um leilão de 62,8 mil contratos de swap cambial – operação que equivale à venda futura de moeda estrangeira. Ficou demonstrado, então, que o Banco Central não quer o dólar a essas cotações. Provavelmente, o teto admitido é algo em torno dos R$ 2,10. O mercado entendeu o recado e passou a negociar o dólar a R$ 2,08 (veja a cotação da moeda americana durante todo este ano no gráfico ao lado).

Também nesta sexta, pela manhã, em palestra a empresários realizada em São Paulo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o governo não tolerará um câmbio abaixo de R$ 2,00 por dólar.

Fica assim avisado que, no momento, o governo Dilma trabalha com um câmbio de bandas, que oscila no intervalo de um piso de R$ 2,00 e um teto de R$ 2,10. Por mais que Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, neguem a existência do câmbio de bandas, os fatos tendem a dizer o contrário.

A expressão “no momento”, usada no parágrafo anterior, tem de ser levada em conta porque, uma vez que as circunstâncias o exijam, o intervalo de bandas também poderá se deslocar.

Ainda nesta sexta-feira, na mesma palestra para os empresários, o ministro Mantega advertiu que as atuais políticas de câmbio e de juros fazem parte de uma política econômica de transição. Embora não tenha ficado inteiramente claro o que o ministro quis dizer com isso, pode-se ter como certo que, mais adiante, tanto o câmbio como os juros podem mudar.

Em todo o caso, dá para concluir que o Banco Central trabalha com um câmbio relativamente fixo. Como os juros básicos (Selic) permanecerão em 7,25% ao ano por um tempo “suficientemente prolongado” – conforme garantem os comunicados do Copom –, sacramenta-se a conclusão de que o governo opera hoje com os dois preços fixos do dinheiro (câmbio e juros).

Se, de um lado, não será permitido que o dólar resvale para abaixo de R$ 2,00, para não prejudicar as exportações; de outro, um avanço para além dos R$ 2,10 também não será tolerado, porque o governo não quer enfrentar pressões adicionais de inflação, a serem provocadas pelo encarecimento das importações – sobretudo dos combustíveis.

Qualquer estudante de Economia Política sabe que não é possível manter fixos esses dois preços a longo prazo. Criam distorções em toda a economia. Talvez, por isso mesmo, o ministro Mantega diga que este é um período transitório.

CONFIRA

A criação de empregos com carteira assinada em outubro, contabilizada pelo Caged, foi decepcionante.

Como explicar? É um número que parece contrariar as estatísticas de desemprego, que apontam para um mercado de trabalho aquecido, próximo do pleno emprego. Duas hipóteses para explicar a aparente anomalia: (1) há cada vez mais ocupação autônoma (trabalho por conta própria); e (2) a indústria e o comércio passaram a contratar mais intensamente mão de obra temporária para enfrentar o aumento da atividade neste fim de ano.