As duas faces de Jano

As duas faces de Jano

A cara carrancuda de Jano voltada para trás, foi decididamente ruim, a despeito da desgastada retórica em contrário do governo.

Celso Ming

02 de janeiro de 2015 | 21h00

Janeiro é um mês dedicado ao deus romano Jano, que tinha duas faces, uma voltada para a frente e outra, para trás. Assim, também janeiro sugere transição do passado para o futuro. Daí por que, além do balanço do que aconteceu nos 12 meses anteriores, aponta para o que vem vindo aí.

(A propósito, janeiro só passou a ser o primeiro mês do ano quando Júlio Cesar determinou que o ano começaria no solstício de inverno, portanto no dia 21 de dezembro. Como o nome diz, dezembro era, antes de César, o décimo mês do ano, assim como setembro era o sétimo, outubro, o oitavo e novembro, o nono.)

Jano. Passado e futuro (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Jano. Passado e futuro (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O balanço dos últimos quatro anos, e mais particularmente o de 2014, a cara carrancuda de Jano voltada para trás, foi decididamente ruim, a despeito da desgastada retórica em contrário do governo. O crescimento econômico próximo de zero, a inflação no teto da meta, o rombo cada vez maior nas contas externas, a indústria prostrada, por si sós dizem quase tudo. Convém enfatizar que isso foi assim não porque a economia mundial não ajudou ou porque houve os efeitos da seca prolongada, também como está nos discursos das autoridades, mas porque a política econômica adotada falhou.

O governo Dilma leu errado os acontecimentos, fez escolhas equivocadas e só tentou correr atrás quando já não dava mais para apresentar resultados. Em meados do ano, as autoridades da área econômica ainda falavam em crescer acima de 2,0%. Em agosto, o Ministério do Planejamento apresentou projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias que projetava para 2015 um avanço irrealista de 3% do PIB e inflação de apenas 5%.

O futuro, a outra cara de Jano e de janeiro, é o tal ajuste, cuja intensidade ainda não se conhece. Mas nesta sexta-feira já apareceram novidades. A mais importante é a de que a dupla mãos de tesoura, Joaquim Levy e Nelson Barbosa (ministros da Fazenda e do Planejamento, respectivamente) não está tão sozinha nem tão contra a corrente como chegou a ser propalado.

O novo ministro da Previdência Social, Carlos Gabas, por exemplo, advertiu nesta sexta que “benefícios temporários não podem gerar mais regalias aos beneficiários do que benefícios permanentes”. E pregou o fim das distorções – embora não tenha ainda deixado claro quais são e como acabar com elas. O novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, tomou posse também com discurso sintonizado na contenção das despesas e no repúdio aos “subsídios aleatórios e indiscriminados”.

O preço imediato da nova lógica é o que já se sabe. É o repasse para o consumidor e para o contribuinte de contas enormes que ficaram zanzando de mão em mão, como batatas quentes. Até agora, não há clareza sobre o tamanho do custo da energia elétrica por meio da queima de derivados de petróleo.

Mas, se no Brasil o passado é incerto, como advertia nos anos 90 o então ministro da Fazenda, Pedro Malan – porque a qualquer momento decisões judiciais podem fazer nova leitura de direitos e deveres-, o futuro, a face para adiante do deus Jano, é mais incerto ainda, porque tem de ser construído sobre bases políticas movediças.

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