Asfixia tarifária

Asfixia tarifária

Uma das razões pelas quais a indústria está sendo esvaziada é a cobrança de elevadíssimas tarifas de energia elétrica, 338% superiores às pagas pela indústria nos Estados Unidos

Celso Ming

27 Abril 2015 | 21h00

O Ministério de Minas e Energia confirma que o governo federal está estudando a proposta de redução das tarifas de energia elétrica para a indústria. Nesse caso, a diferença seria repassada para a conta de luz das famílias.

Se for isso, não será apenas nova supertarifa a ser cobrada sobre o atual tarifaço; será, também, mais um remendo na acidentada política energética do governo Dilma.

Uma das razões pelas quais a indústria está sendo esvaziada é a cobrança de elevadíssimas tarifas de energia elétrica, 338% superiores às pagas pela indústria nos Estados Unidos, como apontam dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) – veja o gráfico abaixo.

EnergiaCusto

No dia 30 de março, a Alcoa, gigante do setor do alumínio, anunciou que está abandonando suas instalações no Maranhão porque já não consegue competir com o resto do mundo.

A Alcoa é uma indústria eletrointensiva, ou seja, seu principal custo é a energia elétrica utilizada no sistema de eletrólise da alumina (óxido de alumínio) obtido por redução da bauxita. Mas há outros setores altamente dependentes da energia elétrica, como a química básica, a metalurgia de não ferrosos (cobre, zinco, níquel, além do alumínio), a indústria do vidro e a da cerâmica.

A obtenção de gás natural a baixo custo nos Estados Unidos, graças à exploração das reservas de xisto, derrubou em dois terços o custo final da energia elétrica. Toda a indústria eletrointensiva do Brasil dificilmente poderá competir nessas condições. Aos atuais custos da energia, ficou mais em conta importar metais ou produtos gerados por eletrólise do que produzi-los aqui. Nesse caso, se quiser continuar no negócio, a indústria teria de se contentar com atuar na área comercial.

O problema de fundo não está nesse alto custo da energia elétrica no Brasil, mas nas enormes deficiências da política energética. O governo Dilma insiste em afirmar que os atuais problemas provêm apenas da estiagem prolongada. Foi a seca, repetem as autoridades do setor, que obrigou o governo a acionar as termoelétricas, que queimam derivados do petróleo e, por isso, produzem energia a custos muito mais altos do que a produzida nas hidrelétricas.

A estiagem provocou, sim, a disparada das tarifas, mas não é a causa dos altos custos. Eles são consequência das omissões do governo que vacila em criar condições para desenvolver a produção de gás de xisto e tem inibido o desenvolvimento de energia elétrica não convencional, especialmente, a energia solar.

O Brasil só não sofrerá um apagão neste ano porque a atividade econômica está em retração. Se o PIB avançasse ao ritmo de 3% ao ano, como tanto se esperou, o suprimento de energia elétrica não daria conta da demanda. Ou seja, a geração de energia elétrica é hoje um fator limitador do crescimento do PIB.

Mais cedo ou mais tarde, os efeitos da estiagem passarão, as tarifas serão submetidas a certa redução, mas os problemas do setor elétrico continuarão aí e a indústria eletrointensiva seguirá sendo empurrada para fora do Brasil – ou, então, novos investimentos não se realizarão por aqui.

CONFIRA:

INECExpectativaAbr

O nível de confiança do consumidor medido pela CNI atingiu em abril seu ponto mais baixo desde 2001.

Recuperação?
É provável que nos próximos meses haja uma recuperação, tanto por parte do consumidor como por parte da indústria e do comércio. Há certa melhora na percepção do desempenho da economia. A balança comercial mostra recuperação, saiu o balanço auditado da Petrobrás, há sinais de destravamento dos leilões de concessão e há, também, alguma melhora na arrecadação, como apontaram nesta segunda-feira as estatísticas da Receita Federal.