Balas na agulha

Celso Ming

15 de dezembro de 2011 | 19h55

Não se consumou o leilão direto de dólares que o Banco Central realizou nesta quinta-feira.

Nos últimos 30 meses, o Banco Central só comprou moeda estrangeira, não vendeu. De lá para cá, as reservas externas saltaram de US$ 209 bilhões para US$ 351 bilhões. Desde abril de 2009 não se realizava um leilão desse tipo. Por que, então, esse deu chabu? E por que o Banco Central sentiu necessidade de atuar agora na ponta da venda de dólares?

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O leilão não se completou porque o Banco Central achou baixa demais a remuneração oferecida pelos interessados. Mas isso não significa que o leilão tenha fracassado. Muito provavelmente o objetivo não foi produzir um fornecimento de dólares, mas avisar o mercado de que as autoridades da área cambial estão dispostas a intervir para suprir eventual escassez de moeda estrangeira. “O Banco Central tem muita bala na agulha” – já advertiu o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

A rigor, se completada com repasse de dólares, a operação desta quinta deveria ter sido como um empréstimo de curto prazo de moeda estrangeira. Foi um leilão com cláusula de recompra. Nos dias 18 de janeiro e 16 de fevereiro de 2012, os tomadores de dólares deveriam devolvê-los ao Banco Central.

Alguns observadores vinham reclamando da falta de moeda estrangeira no mercado. E há, em princípio, algumas razões para isso. No final de cada ano, começa a temporada de intensificação das remessas ao exterior de resultados obtidos pelas filiais de empresas estrangeiras sediadas no Brasil. Para isso compram dólares no câmbio interno. O momento poderia ser, também, de mais procura por financiamentos externos, num ambiente de quase estancamento do crédito no exterior. Mas, nesta quinta-feira, ficou demonstrado o baixo interesse por dólares no câmbio interno.

Mas há outra maneira de avaliar o leilão aparentemente pipocado desta quinta. Até há alguns meses, o objetivo da compra de dólares pelo Banco Central havia sido impedir a excessiva valorização do real (baixa do dólar no câmbio interno). Ou seja, foi para isso que, de abril de 2009 para cá, o estoque de reservas externas aumentou 67%. Se, de uma hora para outra, os dirigentes reverteram seu jogo, ficou claro também que o interesse agora passou a ser de conter a excessiva desvalorização do real. A partir de setembro, a cotação do dólar subiu nada menos que 16,8%. (veja gráfico).

Se essa interpretação estiver correta, o Banco Central manobrou para evitar a atuação conjugada de dois fatores: os aumentos de custos do setor produtivo brasileiro, causados pelo encarecimento de insumos, peças, componentes, conjuntos e capitais importados; e o repasse dessa elevação para os preços internos. Ou seja, o Banco Central começou a se preocupar com os efeitos inflacionários da escalada do dólar.

Embora seus dirigentes repitam que o Banco Central não trabalha nem com pisos nem com tetos para o câmbio, isso também sugere que uma cotação acima de R$ 1,85 por dólar começa a preocupar.

CONFIRA

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No gráfico, o avanço da arrecadação federal em 12 meses.

Não é um desastre. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, tem feito declarações confusas sobre perspectivas de rebaixamento da qualidade da dívida de seu país. Declarou que agências de classificação de risco não merecem credibilidade. Outras vezes, que a perda do triplo A (grau máximo) atiraria a França na correnteza. Nas últimas duas semanas, Sarkozy preferiu dizer que a eventual perda do triplo A dificultaria a administração da dívida, mas não seria uma catástrofe.

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