Beliscada nos juros

Celso Ming

19 de fevereiro de 2010 | 19h11

Na noite de quinta-feira, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) aumentou de 0,50% para 0,75% ao ano os juros cobrados dos bancos nas operações de redesconto.

Em situação normal, seria um passo quase imperceptível. Nas circunstâncias, teve grande impacto no mercado global.

As operações de redesconto são aquelas em que, diante de uma situação de aperto de liquidez, os bancos recorrem ao banco central para obtenção de recursos a fim de atender seus clientes. Eles repassam ao banco central títulos (ou contratos de financiamento) com que ficaram nas operações de crédito e, pelo dinheiro obtido, pagam juros mais altos do que os que vigoram na troca de reservas bancárias.

Nesse sentido, pode-se dizer que as operações de redesconto são punitivas. Pressupõem que o banco passou dos limites nas suas operações ativas (operações de crédito).

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Os mercados reagiram com alta do dólar e das commodities e alguma queda das bolsas porque tomaram como aviso do Fed de que prepara a volta ao normal da política monetária (política de juros). Desde dezembro de 2008, os juros estão zanzando em torno de zero por cento ao ano.

 

Isso significa que o Fed está proporcionando fartura de recursos, não se furtando até mesmo a fazer ligações diretas com os mercados e, dessa forma, contrabalançar o estancamento do crédito que aconteceu a partir do afundamento do Lehman Brothers, em setembro de 2008.

De lá para cá, o Fed injetou mais de US$ 1 trilhão em inúmeras operações (redesconto, redução dos juros básicos, afrouxamento quantitativo, etc.) e ao final de cada reunião de revisão dos juros tem passado o recado de que não há nenhuma perspectiva de que esses recursos comecem a ser recolhidos.

Esse aumento dos juros nas operações de redesconto não foi decidido porque as condições da economia americana melhoraram, mas porque os bancos já desfrutam de condições de liquidez suficientemente satisfatórias para que o caráter punitivo dessa operação seja restabelecido.

No longo e minucioso comunicado divulgado logo após a tomada de decisão, a direção do Fed insiste em que os juros básicos permanecerão entre zero e 0,25% ao ano “por um período prolongado”, tal como vai sendo repetido nos textos oficiais após as reuniões do Fomc (que é o Copom do Fed).

Mais cedo ou mais tarde o Fed (e os demais bancos centrais dos países de alta renda) terão de começar o enxugamento (estratégia de saída).

Todos os dias aparece alguém na imprensa internacional advertindo que dinheiro demais provocará novas bolhas, tão contagiosas como as que estouraram em 2008. No entanto, até agora não há sinal disso.

E as principais razões pelas quais o início do arrocho monetário não deve acontecer tão cedo é a falta de firmeza da recuperação do sistema produtivo conjugado com um nível excessivamente alto do desemprego (de 10% nos Estados Unidos e na área do euro) e a deterioração das condições fiscais da maioria dos países de alta renda.

Por isso, ainda não dá para afirmar que o aumento dos juros no redesconto nos Estados Unidos reflete mais confiança do Fed na recuperação econômica.

Confira

O que é isso, companheiro? O Movimento dos Sem-Terra (MST) teve sexta-feira mais uma decepção com o presidente Lula, que foi a Três Lagoas (MS) prestigiar fábricas de celulose de eucalipto, da Votorantim e da International Paper.

O MST e a ONG Via Campesina têm atacado os “latifúndios de eucaliptos” que denunciam como “desertos verdes”.

Em março, propriedade da própria Votorantim em Candiota, no Rio Grande do Sul, foi invadida por assentados que destruíram plantações de eucalipto. Em abril, o MST invadiu terras cultivadas com eucaliptos da Veracel Celulose.

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