Bendita e maldita

Celso Ming

18 de fevereiro de 2010 | 18h38

As primeiras escaramuças sugerem que a política econômica será um dos temas centrais do debate eleitoral deste ano.

O Congresso do Partido dos Trabalhadores (PT), a ser realizado neste final de semana em Brasília, promete mostrar os benefícios proporcionados ao trabalhador brasileiro pela política econômica do governo Lula. É a tal “herança bendita” a ser deixada para o sucessor – como o Estado de hoje avançou.

Enquanto isso, sem originalidade, o principal partido da oposição, o PSDB, ensaia bater na tese oposta: a da “herança maldita” que a propalada deterioração das contas externas deverá deixar para quem for eleito.

O PT quer enfatizar que, durante a administração Lula, o brasileiro comum melhorou seu nível de vida. O argumento é essencialmente consumista: é o primeiro carro (de segunda mão, naturalmente) exibido aos vizinhos junto à calçada em frente de casa; é a geladeira nova que reluz na cozinha depois que o presidente derrubou o IPI sobre aparelhos domésticos; é o puxadinho construído nos fins de semana também com a redução tributária; é o tênis novo das crianças comprado com o reajuste mais generoso do salário.

Pois não está a TAM firmando seu novo objetivo estratégico na venda de passagens aéreas para os clientes da classe C? Teremos, enfim, o sonhado pau de arara voador e isso ajuda a mostrar como as coisas melhoraram para o assalariado…

Afora isso, fato já sobejamente divulgado, um dos planos de Lula é poder apresentar o companheiro Henrique Meirelles, atual presidente do Banco Central, como penhor de repeteco desta boa fase da economia. É a volta de um velho slogan: “O que é bom tem de continuar.”

Parece difícil que o PMDB engula o banqueiro Meirelles como candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, dentro da ideia de reeditar a dobradinha proletariado-burguesia tão bem-sucedida nas duas eleições anteriores, com Lula-Zé Alencar.

Em todo o caso, a proposta eleitoral continuísta é diferente da brandida com empolgação no encontro nacional do partido em Olinda, de 2001, quando a estratégia adotada foi pregar a “ruPTura necessária com tudo o que está aí”.

Se insistir na resposta já insinuada da “herança maldita”, o PSDB demonstra pobreza de discurso. A deterioração das contas externas, pretensamente provocada tanto pelo câmbio mal administrado como pelos juros escorchantes, desemboca no argumento batido e pouco convincente de que a indústria nacional vai sendo sucateada por essa política econômica aí e que o emprego logo vai virar pó.

De mais a mais, o déficit nas contas correntes não é invenção da gestão Lula. Durante o governo Fernando Henrique chegou a ser colocado em prática e defendido com ardor. Vai ser difícil tentar convencer que, desta vez, é tudo diferente.

É a mesma tarefa complicada que alguns tucanos de bico colorido estão se propondo: a de tentar convencer o eleitor de que a política econômica instituída pela administração Fernando Henrique e seguida na sua essência pelo governo Lula de repente não presta mais, nem para as empresas, nem para as finanças, nem para o assalariado, nem para o Brasil.

Confira

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Perturbação – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, criou uma comissão bipartidária no Congresso para definir como enfrentar a “trajetória perturbadora” do déficit fiscal norte-americano. É o que vai mostrado no gráfico.

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