Bode chinês

Bode chinês

O crescimento da atividade econômica foi sensivelmente maior do que o esperado: foi de 7,3% ao ano, e não os 7,2% ou 7,0% que apontavam as projeções gerais

Celso Ming

21 de outubro de 2014 | 21h00

O bode foi tirado da sala de visitas e produziu alívio momentâneo. Foi o que aconteceu nesta terça-feira na China.
Para aflição geral dos mercados, durante os últimos quatro meses, os analistas foram praticamente unânimes em avisar que a economia chinesa está em desaceleração.

Esse diagnóstico de fundo não foi o que mudou, e isso sugere que o bode voltará ou continua lá. O que mudou foi apenas a percepção do ritmo da desaceleração depois que o governo de Pequim divulgou os resultados do terceiro trimestre. O crescimento da atividade econômica foi sensivelmente maior do que o esperado: foi de 7,3% ao ano, e não os 7,2% ou 7,0% que apontavam as projeções gerais.

China's President Xi Jinping Visits Malaysia

Xi. Reorientação da Economia (FOTO: GOH SENG CHONG/BLOOMBERG)

Crescer esse tanto aí, ainda que menos do que os 7,5% registrados no segundo trimestre, numa paisagem global desolada, em que as economias maduras mostram prostração, não deixa de espalhar alento.
A China já é a segunda economia do mundo. Mais do que o tamanho, foi seu enorme dinamismo que a transformou em locomotiva da produção mundial. Tudo o que acontece ou deixa de acontecer por lá repercute no Planeta.

Por essa e outras razões, a divulgação das estatísticas das contas chinesas provocou reações opostas. Houve analistas que enfatizaram tanto a desaceleração, a maior registrada em cinco anos em um trimestre, como a tendência a mais desaceleração, baseada no fraco desempenho do crédito e da construção civil.

E houve os que comemoraram o resultado melhor do que o esperado, especialmente pelo avanço da indústria em setembro, que alcançou 8,0% em termos anuais, substancialmente acima dos 6,9% de agosto.
O governo do presidente Xi Jinping (foto) e do primeiro-ministro Li Keqiang vem reorientando a economia chinesa de modo a dar mais importância ao consumo interno do que às exportações. O setor privado está sendo chamado a tomar mais iniciativa. As finanças, antes fortemente comandadas pelo setor público, estão se abrindo para as regras de mercado. A ideia é dar mais racionalidade e mais produtividade a toda a atividade econômica.

No entanto, acumulam-se problemas à espera de solução. As empresas, um tanto estonteadas com o vertiginoso crescimento anterior, estão atoladas em excesso de capacidade. Seus administradores estão agora focados no adiamento dos investimentos. O mercado imobiliário foi longe demais, não consegue desovar seus estoques e corre o risco de forte derrubada de preços. Por essa e outras razões, a rede bancária, que esticou seu crédito até onde mais não pode, agora enfrenta riscos crescentes de calote e depende do guarda-chuva oficial.

A maior abertura da economia é, por si só, parte de um processo mais profundo de reformas. Mas a simples dinâmica que delas adveio tende a reduzir o crescimento econômico.
E esta é a principal razão pela qual as reformas também podem ser desaceleradas e, nessas condições, retardar o processo de ajuste.

Do ponto de vista do Brasil, cuja economia também se tornou chinodependente, a desaceleração implica menos receitas com exportações de commodities. Não é à toa que a tonelada de minério de ferro, que chegou a ser faturada perto dos US$ 200, agora não consegue mais do que US$ 80.

CONFIRA:

ChinaPIBSet

No gráfico, a evolução do PIB da China, em bases anuais, desde o terceiro trimestre de 2007.

IPCA-15
A evolução do IPCA nos 30 dias terminados dia 15 de outubro ficou em 0,48%, ao redor do que se esperava. Mas a evolução dos preços não dá tréguas. Dois fatores pareceram particularmente preocupantes: a retomada da tendência à alta do custo dos alimentos e o maior índice de difusão (64,9%, em comparação com os 56,7% do IPCA-15 de setembro), o que mostra que a alta continua muito espalhada.

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